17.12.10

Homicídio Doloso

          A Rebeca deu pro Carlinhos. Não consigo pensar em forma mais delicada para começar esse relato. Ela deu. E enquanto dava pra mim. E fingindo que me amava. Vadia. A primeira mulher que disse que me amava. A última mulher a me magoar daquela forma:
          – Eu te odeio, seu puto miserável.
          Ela me odiava. Mais pelo fato de eu saber que ela me traia e não fazer nada. Ela esperava que eu batesse nela. Que eu matasse o Carlinhos. Que a gente fizesse as pazes depois de todo aquele sangue derramado. Acho que ela nunca me conheceu de fato. Na manhã da nossa primeira briga ela disse que eu devia medir as palavras:
          – Meça as palavras quando falar de mim, seu puto miserável.
          Medir as palavras? Afinal de contas, o que ela queria dizer com isso? Quantas mentiras você acaba inventando quando “mede as palavras”? E quantas verdades você deixa de dizer? Eu nunca iria medir porra nenhuma. E era por isso que ela continuava batendo a porta da sala e fazendo voar todos os meus papéis de rascunho. Ela carregava uma fita métrica para cada idiotice que fosse dizer. E eu nunca tive muita noção de espaço.
          Ela foi embora. Foi bom. Eu tinha uma desculpa para ser um puto miserável. A tristeza é sempre um álibi perfeito.
          Encontrei o Carlinhos quando o corte ainda latejava. Quando alguns outros cortes haviam infeccionado. Eu bebia por todas as mulheres de minha vida. Por Layla, Marina e Camila. Por Ana, Luíza e Julia. Principalmente por Rebeca. Bebia por todas elas e fingia que era apenas por mim. Da porta do bar surgiu o Carlinhos. Cumprimentou a todos como se não tivesse feito nada. Cumprimentou a mim como se não tivesse comido a minha mulher. Mas ele sabia que eu sabia. E mesmo assim fingiu que estava tudo bem:
          – E aí, camarada?
          Aqueles 32 dentes brancos como papel sulfite. Aquela camisa bem passada que ele colocava pra dentro da calça. Aquela limpeza toda que me dava náuseas. Náuseas de pensar nele com a Rebeca. E eu esqueci de medir as palavras. Eu nunca conseguiria medir porra nenhuma com aquele nível etílico:
          – Lembra da vadia que você comeu? Rebeca, ela chamava?
          – Rebeca, ela se chama. E não é vadia.
          – “Chamava”. Morreu, coitada.
          Cara de espanto que não consigo descrever agora. Ele realmente se espantou:
          – Do que você está falando?
          – Eu matei a Rebeca.
          O espanto aumentou. Eu nem me movi. Ele não acreditou mesmo. Deu meia volta e saiu pela porta, como se eu tivesse ficado louco. Ignorava minha loucura. Fingia que era brincadeira. Iria chegar em casa e abraçar Rebeca, e beijar Rebeca, e dar risada de mim. No dia seguinte ele leria nos jornais sobre a minha brincadeira. Eu matei a desgraçada. E nem precisei derramar sangue.
          Enfim. A Rebeca deu pro Carlinhos. E não existe forma mais delicada para terminar esse relato.

Nenhum comentário:

Postar um comentário