12.10.10

Agulhas

          Qual é o limite? Entre a sanidade e a loucura, procuro a fronteira que os separa. Eu notaria se atravessasse a margem? Quando Sofia bateu à porta, meu sangue gelou sem motivos. “Mantenho-a do outro lado”, soou a gélida voz. “Ela é louca”. E através da fina cortina, pude ver só a sombra de sua insanidade. Por trás do pano, ela não parecia assim tão má. E eu me perguntava quem havia traçado a linha que ela atravessou. Sempre quis lhe fazer companhia. Naquele lado. Queria atravessar a porta junto com ela. E dormir sob o teto que protege os loucos.
          A primeira dose seguiu-se do grito. O grito de Sofia. Pude senti-la mais próxima por um instante. E somente por um instante, achei que eu estava do outro lado. Talvez fosse a sensação da loucura. Poluindo meu corpo, mas limpando minha mente. Ou o contrário. Nada mais libertador do que a insensatez.
          “Ela nunca poderia viver em sociedade”, eu ouvia sua voz repetindo. “Nunca”. E eu? Poderia? E você? Com a seringa na mão. O toque quente. A voz fria. Gélida. Não pude sentir seu pulso. E ainda não sei se ele sequer tinha um coração. Roubou o meu, para compensar a falta. E cortou minhas asas. Desmembrou-me, até que mais nada restou, além dos ossos e da carne. A carne em decomposição. Não me entreguei de corpo e alma. Não havia mais alma para dividir. Era minha com egoísmo. Não havia mais corpo. O que nunca fora meu já padecia de tantas mazelas. Vírus, bactérias, fungos. E nem assim ele devolveu meu coração. E ainda assim ele era minha sanguessuga. Meu parasita de palavras congeladas. Falava de Sofia. Falava de sua própria mãe como se tivesse mais direitos do que ela. Direitos de viver deste lado. Como se fosse são.
          Naquela noite, depois das agulhas e do café aguado. Ainda com um pouco da demência em minhas veias, queria vê-la mais de perto. Sem cortinas que encobrissem os olhos de louca. Abri a porta. Para o outro lado. E tive medo. Medo de atravessar. Não devia ser assim tão fácil atravessar a porta. E ela sabia que não poderia voltar. Não saiu. Apenas olhou. Examinou de longe a sala suja. Fitou as agulhas. Fitou-me. “Seus loucos”, ela disse. A última frase coerente que saiu por entre os lábios. Talvez ela fosse mais sensata do que qualquer um de nós poderia sequer imaginar.


continua...

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