12.9.10

A maior história de amor de todos os tempos

          Virei a esquina. Ao mesmo tempo em que ele vinha na direção contrária. Nossos corpos se chocaram. Papéis ao vento. Ele se desculpando, desajeitado, enquanto tentava recolher cada folha. Eu tentando recolher meus pensamentos. Fui interrompida por aqueles olhos. Olhos quase encobertos pelos óculos de aros grossos. Mas ainda era possível contemplar o verde-água daquela íris. Seria exagero dizer que ele era o amor da minha vida. Mas eu sabia que estava apaixonada. Percorri – com os meus próprios olhos castanhos – cada centímetro de seu corpo. Desde os pés, cobertos pelo par de tênis da Nike, até os cabelos, aqueles cachos negros que se rebelavam contra o vento e lhe caíam sobre a face. Passei pelo nariz aquilino e pelos lábios rubros e carnudos. Dei uma volta pelas linhas marcantes de sua face extremamente alva. Vaguei sem rumo nos seus ombros largos e imponentes, nos braços fortes de nadador e nas pernas que pouco se mostravam, pois a calça jeans era um tanto quanto larga demais. Pude ver uma gota de suor escorrer pela sua testa. Ele também estava nervoso.

          Como seria a nossa vida? Juntos. Ele chef de cozinha, eu artista plástica. Perfeitos. Com a nossa casa na zona sul, o chalé em Campos do Jordão e a galeria de arte no centro de São Paulo. Imaginei a festa de casamento. Lua-de-mel em Barcelona. Pensei na beleza que seriam nossos filhos. De olhos verdes e cabelos loiros. Ou de olhos castanhos e cabelos negros. Seriam lindos, afinal. Cresceriam saudáveis e nos dariam netos, igualmente maravilhosos. Enquanto nós dois viveríamos juntos, envelheceríamos juntos e morreríamos juntos. Caixões lado a lado. Mas nada de tristeza. Todos se lembrariam de nós com alegria e uma imensa saudade da nossa perfeição. A história de amor perfeita.
          Então ele juntou os papéis, estendeu a mão direita e os entregou a mim. Pediu desculpas mais uma vez e seguiu o seu caminho. Foi embora levando os cachos, os tênis, o chalé em Campos e nossos filhos e netos. E aquela fora a última vez em que nos vimos.

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