Era o café da manhã. E ninguém parecia realmente desperto. Pareciam dormir enquanto mastigavam a massa pálida de um pãozinho mal assado. Um despertador pode ser traiçoeiro. Prega peças. Diz que é hora de acordar. Mesmo não sendo. E a gente começa o dia, mesmo querendo dormir mais um pouco. Mesmo querendo esticar as costas sobre o lençol e esperar mais cinco minutinhos. “Mãe, só mais cinco minutos”. Mas minha mãe não dava mais cinco minutos. Coitada; ela sempre acreditou no despertador.
Mamãe acordava antes de todo mundo. Ela passava o café enquanto acordava papai. Ela ligava o fogão depois de ter acordado meu irmão. Ela passava manteiga no pão e levava para mim depois que me acordava. E depois eu levantava e ia dizer bom dia para mim mesma. Em frente ao espelho do banheiro. Eu encostava as pontas dos dedos no vidro gelado e dizia “Bom dia, flor do dia”. Isso até parar de me achar uma flor. E começar a preferir a noite. Mas isso é outra história. Naquele dia eu me achava uma margarida. E olhava pro lado. E via minha mãe se pintando. E achava que ela deveria ser uma rosa, daquelas bem vermelhas, que perfumam um quarto inteiro quando estão de bom humor. Ela contornava os olhos com aquela tinta preta que parecia com o guache que eu usava na escola. Mas nela ficava muito mais bonito do que nos meus desenhos. Depois ela passava o batom na boca. E mandava um beijo para mim. Um beijo que eu pegava no ar. Um beijo da cor do vinho que ela escondia atrás do queijo bree.
Depois do café da manhã todo mundo parecia mais vivo. Todo mundo tinha um pouco mais de cor. E minha mãe me colocava no carro. No banco de trás. Quando eu olhava para o espelhinho que ficava bem no meio do vidro da frente, eu podia enxergar os olhos de mamãe. Ela sorria com os olhos. Os cílios compridos. E eu pensava em como seria bom ser mulher logo. Poder me pintar também. Poder ser bonita e andar de salto alto. E eu torcia para que o tempo passasse. Mais rápido do que os outros carros que ultrapassavam a gente.
Eu passava o dia com outras crianças. Eu passava o dia dizendo que minha mãe era linda. Perfeita. Que seus olhos iluminavam mais que o sol que o Pedro tinha pintado no caderno de artes. Eu passava o dia brincando de ser mulher. Mulher que nem a minha mãe. Até que ela voltava para me buscar. Eu entrava no carro e via os olhos dela no espelhinho. Já não eram tão bonitos. A linha preta ao redor dos olhos, que antes era perfeita, já estava disforme. Borrada. Como quando eu derrubava água em cima do papel. Muita água. E os lábios dela não tinham mais a mesma cor. Parecia que alguém havia apagado o batom com uma borracha e o que restara fora apenas uma fina camada do que um dia fora tão cheio de vida. E ela não me mandava mais beijos. E ela não sorria mais. E ela só soluçava. Como quando bebia demais daquele vinho que ela escondia atrás do queijo bree.
Com o tempo eu desisti de crescer. Justo quando eu já havia crescido. Mas ainda pude aproveitar a infância. Pelo menos eu entendi que, quanto mais se cresce, os problemas aumentam em suas devidas proporções. E só entendendo isso eu pude perceber que, por trás de toda aquela pintura, sempre existiriam as lágrimas que, hora ou outra, iriam abrir um rastro de realidade por cima da máscara de ilusões que vinha em cada vidro de base e em cada batom que minha mãe comprava. E outro dia, quando eu bebi do vinho que minha mãe guarda atrás do queijo bree, eu realmente parei para pensar: “Eu já sou uma mulher”. Mas agora eu desisti de me pintar. Desisti dessa ilusão. Que venham as lágrimas. Eu sou uma mulher. E nenhuma pintura em meu rosto fará diferença.
Shi, um comentário:
ResponderExcluirGostei, gostei mesmo!
A parte do queijo bree ficou fodinha, deu uma unidade muito legal pro texto!
Abaixo a maquiagem e o blush dos caras de moda! xD