7.3.10
Pequeno recorte de uma obra inacabada
... E ele deu risada. Ele riu com os poucos dentes que ainda lhe restavam. Persistiam. Em risco de extinção. Pude enxergar três. Se algum se escondia, era por vergonha. Boca suja. Hálito nauseante. Procuro pela sua sanidade. Encontro seu olhos vermelhos que medem sua miséria. Embebidos em álcool. Marejados pela lembrança. Lembro-me de sua figura. A antiga figura. Bela imitação de homem. Bem vestido. Alinhado. Sorridente. Seus trinta e dois dentes. Restam-lhe três. Para onde foram os outros vinte e nove? Seus sessenta e poucos anos. Agora envelhece o dobro a cada dia. Sozinho. Mas ainda assim ele ri. Porque tudo não passa de uma piada. E se eu repito a pergunta ele ri ainda com mais vontade. “Você não sabe?”, ele perguntou. Não. Se soubesse, pouparia o questionamento. Evitaria essa conversa. Evitaria seu cheiro. Se eu soubesse, estaria em casa tentando esquecer. Mas tento lembrar. E você tenta me confundir. “Você realmente não sabe?”. Ele ri ainda mais. Sublinha a palavra “não”. “Não sabe?”. Ele se aproxima. Eu recuo. Assim como fiz em toda a minha vida. Recuo. A cada passo que ele dá, dou dois em retirada. Não, eu não sei. E prefiro não descobrir...
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