7.3.10

Janeiro

Ele disse: “Faça-se a luz!” e a luz se fez. Não era nenhum milagre. Ele puxava o interruptor com uma linha de náilon e ria sozinho. Era solitário. Não tinha muitos amigos. Os poucos que tinha costumavam viajar nas férias. E ele ficava ali, puxando o interruptor com um fio de náilon só para fazer o tempo passar mais rápido. Talvez conseguisse o contrário. Antes puxasse os ponteiros do relógio. Daquele jeito o dia parecia ser ainda mais longo e a semana parecia durar um mês. Um mês que mal havia começado. E ele sabia que teria de passar por aquele mês, dia após dia, assim como todos os outros meses. E amaldiçoava janeiro, querendo que ele fosse um pouco menos quente. E amaldiçoava as férias adiadas do pai. E ia dormir, para ver se o tempo passava mais rápido.

Ele mal abria os olhos e já resmungava. Queria dormir mais um pouco. Olhava o relógio e via que ainda eram três da manhã. Ele podia dormir mais um pouco. Mas não conseguia nem fechar os olhos outra vez. Os braços dormentes e a cabeça doendo. Talvez porque tivesse dormido por apenas duas horas. Ele saía do quarto sem nem calçar os chinelos. Descia as escadas quase escorregando e só assim lembrava que estava descalço. Mas mesmo assim não diminuía a velocidade. Às vezes sentia vontade de tropeçar e rolar pelos degraus. Experimentar a sensação de quebrar algum osso e ir para o colégio com um gesso todo rabiscado. Tinha chegado aos 16 anos sem nenhuma fratura. Já era hora, afinal. Mas não tinha coragem de se jogar de propósito. Então torcia para que seus pés o enganassem, só um pouco, o suficiente para perder o equilíbrio. Quando descia do último degrau, lamentava um pouco, mas com certo alívio. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, quanto menos esperasse, teria alguma surpresa. E chegava à cozinha inteiro, mas certo de que deixara alguns pedaços pelo caminho.

Sua vida era assim. Ele sempre deixava pedaços pelo caminho. Aos poucos ia se perdendo, sem saber como colar tudo de volta. Não sabia nem onde arranjar uma cola tão forte, que fosse capaz de fazê-lo inteiro novamente. O maior pedaço ficara naquele dia, em um setembro não muito distante. Naquele setembro em que Ana fora embora, deixando poucos rastros. Ele sabia que, dali para frente, ela só viveria na sua memória. Em cada uma de suas lembranças. E sentia falta de ter com quem conversar. E nessa tamanha falta ele deixava mais um pedaço cair. Um pedaço dos mais importantes.

O copo nunca ficava cheio. Ele colocava a água até a metade, porque era desastrado e sempre derramava um pouco quando enchia demais. Vez ou outra derrubava o próprio copo. E acabava cortando o pé, pois estava sempre descalço. Juntava os cacos, um por um, deixando um pequeno rastro vermelho onde pisava. Só depois de jogar tudo no lixo ele subia até o banheiro para fazer um curativo. E depois descia, fazendo o caminho inverso para limpar o sangue. E, depois de todo esse trabalho, se esquecia de que estava com sede e nem se dava o incômodo de encher outro copo. Quando tinha que tomar algum remédio para dor de cabeça, se esquecia até das dores e voltava a dormir. Talvez a distração fosse seu melhor remédio.

O pai saía cedo para o trabalho. O filho gostava de ficar sozinho, mas só de vez em quando. Achava que somente quando estava sozinho ele podia ser totalmente autêntico. Não precisava de máscaras. Não precisava de gírias, apelidos e nem de aceitação. Ele se aceitava do jeito dele. Abria a tampa de acrílico da vitrola e colocava um vinil do Elvis para tocar. Não conhecia mais ninguém que tivesse uma vitrola. Mas gostava daqueles sutis ruídos que só um vinil pode oferecer. Quando tinha firmeza na mão, acertava direitinho o começo da música. Quando tremia um pouco, acabava pegando no meio da faixa e tinha que erguer a agulha de novo para tentar pegar a música do início – ou bem no fim da anterior. Não era raro ele soltar a agulha sem querer e riscar alguma faixa. Mas até que ficava engraçado. Um remix acidental. Depois ia garimpar nos sebos, para ver se encontrava um vinil igual. Quando achava algum substituto em bom estado, usava o antigo de enfeite. Colava na parede. Tinha uma parede coberta de vinis. Tinha certeza de que nascera no ano errado da década errada. Pensava até ter nascido no planeta errado.

Os dias continuaram a passos lentos e ele nem lembrava de seu aniversário. Gostava de fazer aniversário em janeiro. Acabava passando despercebido e não corria risco de alguém do colégio jogar ovos em sua cabeça. Foi um pouco triste aquele ano. A festa se resumia a um bolo e ao pai. Mas a decisão era dele:

– Estou um pouco velho para festas, pai.

– Nunca se está velho para festas, filho.

O pai não insistia. Sabia que era fase. Sabia que fases só se curam com o tempo. Mas não deixou de comprar um bolo na padaria da esquina. Só que, dessa vez, fingira que se esquecera das velas. E o filho, agora com 17 anos, sentia falta de fazer um pedido. Mas se convencia de que estava velho demais – mesmo sendo muito novo para perceber que sua vida mal havia começado – e que, para conseguir o queria, a última coisa de que precisava era de uma vela. E sentia falta do que soprar.

Naquela noite ele nem dormiu. Quando notou que estava amanhecendo, levantou de súbito da cama desarrumada e foi abrir a janela. O barulho das dobradiças se contorcendo lhe dava um arrepio na espinha. Ainda estava escuro, mas lá longe, depois dos tantos prédios e de alguma serra da qual só se via a sombra, o sol surgia timidamente. Aos poucos. Ele gostava daquele clima que o dia só consegue ter um pouco antes de amanhecer e logo depois de entardecer. Ele gostava da noite e da lua. Simpatizava com as estrelas, mas não via nada demais nelas. Por isso não gostava muito do sol. E ele era muito quente. Preferia o frio. Preferia usar cachecol e blusa de manga comprida. Ficava mais bonito assim. Era magro demais para ficar bem de regata. Não tinha músculos para exibir. E os cabelos cacheados caíam bem debaixo de um gorro. E a boca ficava ainda mais vermelha por causa do frio. Às vezes ficava roxa, mas só quando ele passava tempo demais na rua. A pele perdia aquele bronzeado de praia e ele voltava a ser branco como neve. Também gostava das botas que tinha ganhado do pai, que apertavam um pouco dos lados, mas com certeza lhe davam um ar mais sério, quase intimidador. Olhando pela janela, ele soprava o nada. Imaginava uma vela a sua frente. E soprava. Pedindo que chegasse logo o inverno. Pedindo que chegasse logo a parte boa da sua história.

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