Eu disse “Prazer”, mas você nem sabia meu nome. Descobriu que eu tinha dois. Você acabou escolhendo um. Eu escolhi o seu. Depois o tempo passou. E nos conhecemos além dos nossos nomes. Somente então pudemos traçar planos. E nossos olhos brilhavam com aquela visão do futuro. E eu dizia que era provável que nunca mais nos víssemos depois daquele mês de dezembro. E aí você sumiu.
Tudo bem. Eu te perdôo. Não pelo sumiço. Eu sei que não é de propósito. Mas sempre que eu dizia que nossos encontros seriam raros, você não acreditava. E agora você é a prova viva disso. E sabe de uma coisa? O que eu mais queria é que você me provasse que eu estava errada. Eu gostaria que você provasse que nossa amizade iria além daquele semestre. Além daquele mês de dezembro. Está indo. Mas até quando? Tudo bem, eu te perdôo. Perdôo por você ter me enganado esse tempo todo, com seus planos e olhinhos brilhantes. Perdôo você por ter feito uma certa diferença na minha vida. Perdôo você por ter se tornado importante para mim. Afinal, não foi de propósito. Ou foi?
Depois desse tempo ainda lhe devo uma carta, ainda estou com seus lápis aquareláveis e com seu “Capitães da areia”, ainda tenho uma foto sua junto com o nosso autista e tenho ¬– em algum lugar de alguma gaveta – uma palheta roxa. E ainda tenho na memória seus olhos e seus cachos (quase) loiros. Portanto, não pense que se livrou de mim; ainda tenho desculpas para poder te encontrar. Talvez para devolver suas coisas. Pode ser só para jogar conversa fora. Mas enquanto você lembrar do meu nome, eu ainda poderei fazer parte da sua vida.
Beijo... e se cuida!
9.3.10
O pedaço sem título de uma mulher
Era o café da manhã. E ninguém parecia realmente desperto. Pareciam dormir enquanto mastigavam a massa pálida de um pãozinho mal assado. Um despertador pode ser traiçoeiro. Prega peças. Diz que é hora de acordar. Mesmo não sendo. E a gente começa o dia, mesmo querendo dormir mais um pouco. Mesmo querendo esticar as costas sobre o lençol e esperar mais cinco minutinhos. “Mãe, só mais cinco minutos”. Mas minha mãe não dava mais cinco minutos. Coitada; ela sempre acreditou no despertador.
Mamãe acordava antes de todo mundo. Ela passava o café enquanto acordava papai. Ela ligava o fogão depois de ter acordado meu irmão. Ela passava manteiga no pão e levava para mim depois que me acordava. E depois eu levantava e ia dizer bom dia para mim mesma. Em frente ao espelho do banheiro. Eu encostava as pontas dos dedos no vidro gelado e dizia “Bom dia, flor do dia”. Isso até parar de me achar uma flor. E começar a preferir a noite. Mas isso é outra história. Naquele dia eu me achava uma margarida. E olhava pro lado. E via minha mãe se pintando. E achava que ela deveria ser uma rosa, daquelas bem vermelhas, que perfumam um quarto inteiro quando estão de bom humor. Ela contornava os olhos com aquela tinta preta que parecia com o guache que eu usava na escola. Mas nela ficava muito mais bonito do que nos meus desenhos. Depois ela passava o batom na boca. E mandava um beijo para mim. Um beijo que eu pegava no ar. Um beijo da cor do vinho que ela escondia atrás do queijo bree.
Depois do café da manhã todo mundo parecia mais vivo. Todo mundo tinha um pouco mais de cor. E minha mãe me colocava no carro. No banco de trás. Quando eu olhava para o espelhinho que ficava bem no meio do vidro da frente, eu podia enxergar os olhos de mamãe. Ela sorria com os olhos. Os cílios compridos. E eu pensava em como seria bom ser mulher logo. Poder me pintar também. Poder ser bonita e andar de salto alto. E eu torcia para que o tempo passasse. Mais rápido do que os outros carros que ultrapassavam a gente.
Eu passava o dia com outras crianças. Eu passava o dia dizendo que minha mãe era linda. Perfeita. Que seus olhos iluminavam mais que o sol que o Pedro tinha pintado no caderno de artes. Eu passava o dia brincando de ser mulher. Mulher que nem a minha mãe. Até que ela voltava para me buscar. Eu entrava no carro e via os olhos dela no espelhinho. Já não eram tão bonitos. A linha preta ao redor dos olhos, que antes era perfeita, já estava disforme. Borrada. Como quando eu derrubava água em cima do papel. Muita água. E os lábios dela não tinham mais a mesma cor. Parecia que alguém havia apagado o batom com uma borracha e o que restara fora apenas uma fina camada do que um dia fora tão cheio de vida. E ela não me mandava mais beijos. E ela não sorria mais. E ela só soluçava. Como quando bebia demais daquele vinho que ela escondia atrás do queijo bree.
Com o tempo eu desisti de crescer. Justo quando eu já havia crescido. Mas ainda pude aproveitar a infância. Pelo menos eu entendi que, quanto mais se cresce, os problemas aumentam em suas devidas proporções. E só entendendo isso eu pude perceber que, por trás de toda aquela pintura, sempre existiriam as lágrimas que, hora ou outra, iriam abrir um rastro de realidade por cima da máscara de ilusões que vinha em cada vidro de base e em cada batom que minha mãe comprava. E outro dia, quando eu bebi do vinho que minha mãe guarda atrás do queijo bree, eu realmente parei para pensar: “Eu já sou uma mulher”. Mas agora eu desisti de me pintar. Desisti dessa ilusão. Que venham as lágrimas. Eu sou uma mulher. E nenhuma pintura em meu rosto fará diferença.
Mamãe acordava antes de todo mundo. Ela passava o café enquanto acordava papai. Ela ligava o fogão depois de ter acordado meu irmão. Ela passava manteiga no pão e levava para mim depois que me acordava. E depois eu levantava e ia dizer bom dia para mim mesma. Em frente ao espelho do banheiro. Eu encostava as pontas dos dedos no vidro gelado e dizia “Bom dia, flor do dia”. Isso até parar de me achar uma flor. E começar a preferir a noite. Mas isso é outra história. Naquele dia eu me achava uma margarida. E olhava pro lado. E via minha mãe se pintando. E achava que ela deveria ser uma rosa, daquelas bem vermelhas, que perfumam um quarto inteiro quando estão de bom humor. Ela contornava os olhos com aquela tinta preta que parecia com o guache que eu usava na escola. Mas nela ficava muito mais bonito do que nos meus desenhos. Depois ela passava o batom na boca. E mandava um beijo para mim. Um beijo que eu pegava no ar. Um beijo da cor do vinho que ela escondia atrás do queijo bree.
Depois do café da manhã todo mundo parecia mais vivo. Todo mundo tinha um pouco mais de cor. E minha mãe me colocava no carro. No banco de trás. Quando eu olhava para o espelhinho que ficava bem no meio do vidro da frente, eu podia enxergar os olhos de mamãe. Ela sorria com os olhos. Os cílios compridos. E eu pensava em como seria bom ser mulher logo. Poder me pintar também. Poder ser bonita e andar de salto alto. E eu torcia para que o tempo passasse. Mais rápido do que os outros carros que ultrapassavam a gente.
Eu passava o dia com outras crianças. Eu passava o dia dizendo que minha mãe era linda. Perfeita. Que seus olhos iluminavam mais que o sol que o Pedro tinha pintado no caderno de artes. Eu passava o dia brincando de ser mulher. Mulher que nem a minha mãe. Até que ela voltava para me buscar. Eu entrava no carro e via os olhos dela no espelhinho. Já não eram tão bonitos. A linha preta ao redor dos olhos, que antes era perfeita, já estava disforme. Borrada. Como quando eu derrubava água em cima do papel. Muita água. E os lábios dela não tinham mais a mesma cor. Parecia que alguém havia apagado o batom com uma borracha e o que restara fora apenas uma fina camada do que um dia fora tão cheio de vida. E ela não me mandava mais beijos. E ela não sorria mais. E ela só soluçava. Como quando bebia demais daquele vinho que ela escondia atrás do queijo bree.
Com o tempo eu desisti de crescer. Justo quando eu já havia crescido. Mas ainda pude aproveitar a infância. Pelo menos eu entendi que, quanto mais se cresce, os problemas aumentam em suas devidas proporções. E só entendendo isso eu pude perceber que, por trás de toda aquela pintura, sempre existiriam as lágrimas que, hora ou outra, iriam abrir um rastro de realidade por cima da máscara de ilusões que vinha em cada vidro de base e em cada batom que minha mãe comprava. E outro dia, quando eu bebi do vinho que minha mãe guarda atrás do queijo bree, eu realmente parei para pensar: “Eu já sou uma mulher”. Mas agora eu desisti de me pintar. Desisti dessa ilusão. Que venham as lágrimas. Eu sou uma mulher. E nenhuma pintura em meu rosto fará diferença.
7.3.10
Pequeno recorte de uma obra inacabada
... E ele deu risada. Ele riu com os poucos dentes que ainda lhe restavam. Persistiam. Em risco de extinção. Pude enxergar três. Se algum se escondia, era por vergonha. Boca suja. Hálito nauseante. Procuro pela sua sanidade. Encontro seu olhos vermelhos que medem sua miséria. Embebidos em álcool. Marejados pela lembrança. Lembro-me de sua figura. A antiga figura. Bela imitação de homem. Bem vestido. Alinhado. Sorridente. Seus trinta e dois dentes. Restam-lhe três. Para onde foram os outros vinte e nove? Seus sessenta e poucos anos. Agora envelhece o dobro a cada dia. Sozinho. Mas ainda assim ele ri. Porque tudo não passa de uma piada. E se eu repito a pergunta ele ri ainda com mais vontade. “Você não sabe?”, ele perguntou. Não. Se soubesse, pouparia o questionamento. Evitaria essa conversa. Evitaria seu cheiro. Se eu soubesse, estaria em casa tentando esquecer. Mas tento lembrar. E você tenta me confundir. “Você realmente não sabe?”. Ele ri ainda mais. Sublinha a palavra “não”. “Não sabe?”. Ele se aproxima. Eu recuo. Assim como fiz em toda a minha vida. Recuo. A cada passo que ele dá, dou dois em retirada. Não, eu não sei. E prefiro não descobrir...
Janeiro
Ele disse: “Faça-se a luz!” e a luz se fez. Não era nenhum milagre. Ele puxava o interruptor com uma linha de náilon e ria sozinho. Era solitário. Não tinha muitos amigos. Os poucos que tinha costumavam viajar nas férias. E ele ficava ali, puxando o interruptor com um fio de náilon só para fazer o tempo passar mais rápido. Talvez conseguisse o contrário. Antes puxasse os ponteiros do relógio. Daquele jeito o dia parecia ser ainda mais longo e a semana parecia durar um mês. Um mês que mal havia começado. E ele sabia que teria de passar por aquele mês, dia após dia, assim como todos os outros meses. E amaldiçoava janeiro, querendo que ele fosse um pouco menos quente. E amaldiçoava as férias adiadas do pai. E ia dormir, para ver se o tempo passava mais rápido.
Ele mal abria os olhos e já resmungava. Queria dormir mais um pouco. Olhava o relógio e via que ainda eram três da manhã. Ele podia dormir mais um pouco. Mas não conseguia nem fechar os olhos outra vez. Os braços dormentes e a cabeça doendo. Talvez porque tivesse dormido por apenas duas horas. Ele saía do quarto sem nem calçar os chinelos. Descia as escadas quase escorregando e só assim lembrava que estava descalço. Mas mesmo assim não diminuía a velocidade. Às vezes sentia vontade de tropeçar e rolar pelos degraus. Experimentar a sensação de quebrar algum osso e ir para o colégio com um gesso todo rabiscado. Tinha chegado aos 16 anos sem nenhuma fratura. Já era hora, afinal. Mas não tinha coragem de se jogar de propósito. Então torcia para que seus pés o enganassem, só um pouco, o suficiente para perder o equilíbrio. Quando descia do último degrau, lamentava um pouco, mas com certo alívio. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, quanto menos esperasse, teria alguma surpresa. E chegava à cozinha inteiro, mas certo de que deixara alguns pedaços pelo caminho.
Sua vida era assim. Ele sempre deixava pedaços pelo caminho. Aos poucos ia se perdendo, sem saber como colar tudo de volta. Não sabia nem onde arranjar uma cola tão forte, que fosse capaz de fazê-lo inteiro novamente. O maior pedaço ficara naquele dia, em um setembro não muito distante. Naquele setembro em que Ana fora embora, deixando poucos rastros. Ele sabia que, dali para frente, ela só viveria na sua memória. Em cada uma de suas lembranças. E sentia falta de ter com quem conversar. E nessa tamanha falta ele deixava mais um pedaço cair. Um pedaço dos mais importantes.
O copo nunca ficava cheio. Ele colocava a água até a metade, porque era desastrado e sempre derramava um pouco quando enchia demais. Vez ou outra derrubava o próprio copo. E acabava cortando o pé, pois estava sempre descalço. Juntava os cacos, um por um, deixando um pequeno rastro vermelho onde pisava. Só depois de jogar tudo no lixo ele subia até o banheiro para fazer um curativo. E depois descia, fazendo o caminho inverso para limpar o sangue. E, depois de todo esse trabalho, se esquecia de que estava com sede e nem se dava o incômodo de encher outro copo. Quando tinha que tomar algum remédio para dor de cabeça, se esquecia até das dores e voltava a dormir. Talvez a distração fosse seu melhor remédio.
O pai saía cedo para o trabalho. O filho gostava de ficar sozinho, mas só de vez em quando. Achava que somente quando estava sozinho ele podia ser totalmente autêntico. Não precisava de máscaras. Não precisava de gírias, apelidos e nem de aceitação. Ele se aceitava do jeito dele. Abria a tampa de acrílico da vitrola e colocava um vinil do Elvis para tocar. Não conhecia mais ninguém que tivesse uma vitrola. Mas gostava daqueles sutis ruídos que só um vinil pode oferecer. Quando tinha firmeza na mão, acertava direitinho o começo da música. Quando tremia um pouco, acabava pegando no meio da faixa e tinha que erguer a agulha de novo para tentar pegar a música do início – ou bem no fim da anterior. Não era raro ele soltar a agulha sem querer e riscar alguma faixa. Mas até que ficava engraçado. Um remix acidental. Depois ia garimpar nos sebos, para ver se encontrava um vinil igual. Quando achava algum substituto em bom estado, usava o antigo de enfeite. Colava na parede. Tinha uma parede coberta de vinis. Tinha certeza de que nascera no ano errado da década errada. Pensava até ter nascido no planeta errado.
Os dias continuaram a passos lentos e ele nem lembrava de seu aniversário. Gostava de fazer aniversário em janeiro. Acabava passando despercebido e não corria risco de alguém do colégio jogar ovos em sua cabeça. Foi um pouco triste aquele ano. A festa se resumia a um bolo e ao pai. Mas a decisão era dele:
– Estou um pouco velho para festas, pai.
– Nunca se está velho para festas, filho.
O pai não insistia. Sabia que era fase. Sabia que fases só se curam com o tempo. Mas não deixou de comprar um bolo na padaria da esquina. Só que, dessa vez, fingira que se esquecera das velas. E o filho, agora com 17 anos, sentia falta de fazer um pedido. Mas se convencia de que estava velho demais – mesmo sendo muito novo para perceber que sua vida mal havia começado – e que, para conseguir o queria, a última coisa de que precisava era de uma vela. E sentia falta do que soprar.
Naquela noite ele nem dormiu. Quando notou que estava amanhecendo, levantou de súbito da cama desarrumada e foi abrir a janela. O barulho das dobradiças se contorcendo lhe dava um arrepio na espinha. Ainda estava escuro, mas lá longe, depois dos tantos prédios e de alguma serra da qual só se via a sombra, o sol surgia timidamente. Aos poucos. Ele gostava daquele clima que o dia só consegue ter um pouco antes de amanhecer e logo depois de entardecer. Ele gostava da noite e da lua. Simpatizava com as estrelas, mas não via nada demais nelas. Por isso não gostava muito do sol. E ele era muito quente. Preferia o frio. Preferia usar cachecol e blusa de manga comprida. Ficava mais bonito assim. Era magro demais para ficar bem de regata. Não tinha músculos para exibir. E os cabelos cacheados caíam bem debaixo de um gorro. E a boca ficava ainda mais vermelha por causa do frio. Às vezes ficava roxa, mas só quando ele passava tempo demais na rua. A pele perdia aquele bronzeado de praia e ele voltava a ser branco como neve. Também gostava das botas que tinha ganhado do pai, que apertavam um pouco dos lados, mas com certeza lhe davam um ar mais sério, quase intimidador. Olhando pela janela, ele soprava o nada. Imaginava uma vela a sua frente. E soprava. Pedindo que chegasse logo o inverno. Pedindo que chegasse logo a parte boa da sua história.
Ele mal abria os olhos e já resmungava. Queria dormir mais um pouco. Olhava o relógio e via que ainda eram três da manhã. Ele podia dormir mais um pouco. Mas não conseguia nem fechar os olhos outra vez. Os braços dormentes e a cabeça doendo. Talvez porque tivesse dormido por apenas duas horas. Ele saía do quarto sem nem calçar os chinelos. Descia as escadas quase escorregando e só assim lembrava que estava descalço. Mas mesmo assim não diminuía a velocidade. Às vezes sentia vontade de tropeçar e rolar pelos degraus. Experimentar a sensação de quebrar algum osso e ir para o colégio com um gesso todo rabiscado. Tinha chegado aos 16 anos sem nenhuma fratura. Já era hora, afinal. Mas não tinha coragem de se jogar de propósito. Então torcia para que seus pés o enganassem, só um pouco, o suficiente para perder o equilíbrio. Quando descia do último degrau, lamentava um pouco, mas com certo alívio. Sabia que, mais cedo ou mais tarde, quanto menos esperasse, teria alguma surpresa. E chegava à cozinha inteiro, mas certo de que deixara alguns pedaços pelo caminho.
Sua vida era assim. Ele sempre deixava pedaços pelo caminho. Aos poucos ia se perdendo, sem saber como colar tudo de volta. Não sabia nem onde arranjar uma cola tão forte, que fosse capaz de fazê-lo inteiro novamente. O maior pedaço ficara naquele dia, em um setembro não muito distante. Naquele setembro em que Ana fora embora, deixando poucos rastros. Ele sabia que, dali para frente, ela só viveria na sua memória. Em cada uma de suas lembranças. E sentia falta de ter com quem conversar. E nessa tamanha falta ele deixava mais um pedaço cair. Um pedaço dos mais importantes.
O copo nunca ficava cheio. Ele colocava a água até a metade, porque era desastrado e sempre derramava um pouco quando enchia demais. Vez ou outra derrubava o próprio copo. E acabava cortando o pé, pois estava sempre descalço. Juntava os cacos, um por um, deixando um pequeno rastro vermelho onde pisava. Só depois de jogar tudo no lixo ele subia até o banheiro para fazer um curativo. E depois descia, fazendo o caminho inverso para limpar o sangue. E, depois de todo esse trabalho, se esquecia de que estava com sede e nem se dava o incômodo de encher outro copo. Quando tinha que tomar algum remédio para dor de cabeça, se esquecia até das dores e voltava a dormir. Talvez a distração fosse seu melhor remédio.
O pai saía cedo para o trabalho. O filho gostava de ficar sozinho, mas só de vez em quando. Achava que somente quando estava sozinho ele podia ser totalmente autêntico. Não precisava de máscaras. Não precisava de gírias, apelidos e nem de aceitação. Ele se aceitava do jeito dele. Abria a tampa de acrílico da vitrola e colocava um vinil do Elvis para tocar. Não conhecia mais ninguém que tivesse uma vitrola. Mas gostava daqueles sutis ruídos que só um vinil pode oferecer. Quando tinha firmeza na mão, acertava direitinho o começo da música. Quando tremia um pouco, acabava pegando no meio da faixa e tinha que erguer a agulha de novo para tentar pegar a música do início – ou bem no fim da anterior. Não era raro ele soltar a agulha sem querer e riscar alguma faixa. Mas até que ficava engraçado. Um remix acidental. Depois ia garimpar nos sebos, para ver se encontrava um vinil igual. Quando achava algum substituto em bom estado, usava o antigo de enfeite. Colava na parede. Tinha uma parede coberta de vinis. Tinha certeza de que nascera no ano errado da década errada. Pensava até ter nascido no planeta errado.
Os dias continuaram a passos lentos e ele nem lembrava de seu aniversário. Gostava de fazer aniversário em janeiro. Acabava passando despercebido e não corria risco de alguém do colégio jogar ovos em sua cabeça. Foi um pouco triste aquele ano. A festa se resumia a um bolo e ao pai. Mas a decisão era dele:
– Estou um pouco velho para festas, pai.
– Nunca se está velho para festas, filho.
O pai não insistia. Sabia que era fase. Sabia que fases só se curam com o tempo. Mas não deixou de comprar um bolo na padaria da esquina. Só que, dessa vez, fingira que se esquecera das velas. E o filho, agora com 17 anos, sentia falta de fazer um pedido. Mas se convencia de que estava velho demais – mesmo sendo muito novo para perceber que sua vida mal havia começado – e que, para conseguir o queria, a última coisa de que precisava era de uma vela. E sentia falta do que soprar.
Naquela noite ele nem dormiu. Quando notou que estava amanhecendo, levantou de súbito da cama desarrumada e foi abrir a janela. O barulho das dobradiças se contorcendo lhe dava um arrepio na espinha. Ainda estava escuro, mas lá longe, depois dos tantos prédios e de alguma serra da qual só se via a sombra, o sol surgia timidamente. Aos poucos. Ele gostava daquele clima que o dia só consegue ter um pouco antes de amanhecer e logo depois de entardecer. Ele gostava da noite e da lua. Simpatizava com as estrelas, mas não via nada demais nelas. Por isso não gostava muito do sol. E ele era muito quente. Preferia o frio. Preferia usar cachecol e blusa de manga comprida. Ficava mais bonito assim. Era magro demais para ficar bem de regata. Não tinha músculos para exibir. E os cabelos cacheados caíam bem debaixo de um gorro. E a boca ficava ainda mais vermelha por causa do frio. Às vezes ficava roxa, mas só quando ele passava tempo demais na rua. A pele perdia aquele bronzeado de praia e ele voltava a ser branco como neve. Também gostava das botas que tinha ganhado do pai, que apertavam um pouco dos lados, mas com certeza lhe davam um ar mais sério, quase intimidador. Olhando pela janela, ele soprava o nada. Imaginava uma vela a sua frente. E soprava. Pedindo que chegasse logo o inverno. Pedindo que chegasse logo a parte boa da sua história.
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