Essa página já está parada há algum tempo e não pretendo voltar mais aqui. Nenhum motivo em especial, só decidi focar mais em aspectos diferentes, tanto na escrita quanto no resto da vida.
Entra no meu blog novo. Quem sabe lá você encontra algo interessante...
19.1.12
10.3.11
[Sobre aquela vez em que achei melhor não dar um título]
Dessa distância, tudo que eu posso ver é o brilho do olho esquerdo dele. Só nesse brilho já tem muita coisa implícita. Mas minha mão direita, pousada sobre seu peito nu, consegue ir além e sentir o coração. Um pouco mais rápido que o normal. O ar quente que sai de suas narinas, bate na minha orelha e faz arrepiar o cabelo da nuca. Uma coisa leva a outra. E daqui a algumas horas eu estarei debaixo daquele chuveiro, tentando não pensar que a água está quente demais para um dia de março. Colocarei uma roupa limpa, cujo cheiro seja só o meu. Depois vou continuar mantendo a pose e o sorriso. Continuarei fingindo que tudo está bem. Mesmo não estando. Falarei sobre uma festa que nunca houve, tentando explicar o cheiro do cigarro na minha roupa. Aí vou contar piadas sobre aquela música noir, aquele filme parnasiano, sobre o livro bossa-nova. Vou comer o feijão raspado do fundo da panela, meio sem gosto, mas a única coisa que restou da janta de ontem. Sem querer, vou acabar arrancando aquela pele ao redor da cutícula da unha, que está me irritando nesse mindinho. Vai sangrar e, depois, ainda vai me fazer o favor de inflamar. Latejar. Vou ficar chupando o dedo mindinho até começar a latejar ainda mais. Então abro a caixa de suco de laranja que está na porta da geladeira, que eu sei que minha mãe está guardando pra quando o meu tio vier visitar a gente. Ele nunca visita a gente mesmo. Quando eu sentar na frente do computador, vou fazer qualquer coisa, menos o trabalho da faculdade que eu tenho que fazer. Aí vou começar a escrever sobre isso que eu estou pensando agora. Inevitavelmente, vou lembrar dele. Pesarei prós e contras, analisarei probabilidades, atualizarei todos os bancos de dados que dizem que é dele mesmo que eu gosto. Mas aí vou pensar em terminar com ele na sexta. Só que vou mudar de idéia na quinta, assim que ele sorrir pra mim. Depois vou ficar confusa de novo. Mas tudo bem. Por enquanto, eu só enxergo o brilho do olho esquerdo dele.
21.2.11
Nós
Quando eu te quis, você me quis. Nós fomos um do outro e essa reciprocidade era a única coisa que eu procurava. Fazia sentido, até então, que tudo que fosse meu virasse nosso e que, se fosse seu, eu poderia ter minha parte. Chegou uma hora em que a gente se perdeu nessa certeza. Aquela hora em que vira narcisismo. E eu cheguei a achar que podia resolver os seus problemas. Os meus já eram suficientes para uma pessoa só. Às vezes é melhor abrir mão. Desci do pedestal e esqueci de te levar comigo. Levou um tempo, mas deixou de ser recíproco. Eu não te queria mais, antes que você pudesse dizer o mesmo. Essa parte foi difícil. Foi tão difícil pra mim quanto foi pra você. Acredite. Se eu pudesse, te amava até morrer. Mas eu não posso. Parece até que a data de validade expirou. Da mesma forma que o leite que eu deixei na porta da geladeira. Faz mal se alguém beber. Só que você nunca foi de desistir fácil, não é mesmo? Eu bebi o leite depois do prazo de validade. E isso me fez tão mal, que você nem imagina o quanto. Tudo pra não te fazer sofrer. E era desse narcisismo que eu fugi da primeira vez. Acabei fugindo da segunda. E eu sei que essa parte foi muito mais difícil do que a outra. Porque quando se perde a mesma coisa duas vezes, é só pra ter a certeza de que você nunca a teve de fato. Nunca te pertenceu como você acreditava. Eu nunca fui sua. Eu pertencia demais a mim e não poderia ser de mais ninguém. E mesmo assim, eu continuava achando que você também me pertencia. Com toda essa prepotência, achei que você sempre esperaria por mim. E quando você deixou de ser meu, eu percebi que fazia falta. Quando eu realmente te perdi, pude ter noção do que você sentiu quando me perdeu. Dói. Eu não gosto dessa sensação. Agora estamos perdidos. Eu sem você, você sem mim. Parecia ser a única coisa que eu procurava. Agora não faz sentido. Puxa essa ponta que eu puxo a outra. Ai, que esse nó não desata nunca mais.
24.12.10
Tentarei ser breve
Eu quero aprender. Aprender a respirar. Do cerne de uma estranha mágoa sem origem conhecida, surgiu em mim a vontade de nadar contra a corrente desse oceano que me sufoca. Quero aprender a dizer as coisas certas, no exato momento em que precisam ser ditas. Aprender a estar em dois lugares ao mesmo tempo, seja de corpo ou de alma. Quero cruzar a linha que risco em volta de mim, aquela que mantém todos afastados, que diz subliminarmente: “Eu tenho o controle”. Quero perder o controle. Aprender a me deixar ser controlada, mas somente nos momentos em que sei que não tenho mais domínio de mim mesma. Chorar em público. Aprender a conquistar a confiança de quem amo. O respeito. A reciprocidade. Quero aprender a nadar.
Aprendizado leva tempo, leva aos erros, aos acertos. Aprendizado requer esforço. Quero aprender a ter forças. Saber de onde as posso tirar, quando as mesmas me faltarem. Ter de sobra, pra poder dividir. Para que as perguntas que me parecem tão simples, obtenham suas respostas. As quais eu tenho certeza de que estão a zombar de mim, bem diante do meu nariz. Quero aprender a enxerga-las. Antes que esse oceano me leve de vez.
Atordoada. Perdida. Solitária. Gastando tanta energia em futilidades e poupando-a para o que realmente importa. Para aquilo que eu quero aprender. Depende de mim. Somente eu posso ser meu bote salva-vidas. Eu sou a única que posso remar. E que seja somente eu em meio a esse oceano de águas turbulentas. Não há mais espaço no bote. E enquanto não há terra à vista, contento-me em buscar o escasso ar da superfície. Em perder-me de vez em quando nessa imensidão da qual enxergo nada além de um palmo à minha frente. Enquanto a calmaria não vem.
Eu queria aprender a respirar debaixo da água do oceano.
Aprendizado leva tempo, leva aos erros, aos acertos. Aprendizado requer esforço. Quero aprender a ter forças. Saber de onde as posso tirar, quando as mesmas me faltarem. Ter de sobra, pra poder dividir. Para que as perguntas que me parecem tão simples, obtenham suas respostas. As quais eu tenho certeza de que estão a zombar de mim, bem diante do meu nariz. Quero aprender a enxerga-las. Antes que esse oceano me leve de vez.
Atordoada. Perdida. Solitária. Gastando tanta energia em futilidades e poupando-a para o que realmente importa. Para aquilo que eu quero aprender. Depende de mim. Somente eu posso ser meu bote salva-vidas. Eu sou a única que posso remar. E que seja somente eu em meio a esse oceano de águas turbulentas. Não há mais espaço no bote. E enquanto não há terra à vista, contento-me em buscar o escasso ar da superfície. Em perder-me de vez em quando nessa imensidão da qual enxergo nada além de um palmo à minha frente. Enquanto a calmaria não vem.
Eu queria aprender a respirar debaixo da água do oceano.
17.12.10
Homicídio Doloso
A Rebeca deu pro Carlinhos. Não consigo pensar em forma mais delicada para começar esse relato. Ela deu. E enquanto dava pra mim. E fingindo que me amava. Vadia. A primeira mulher que disse que me amava. A última mulher a me magoar daquela forma:
– Eu te odeio, seu puto miserável.
Ela me odiava. Mais pelo fato de eu saber que ela me traia e não fazer nada. Ela esperava que eu batesse nela. Que eu matasse o Carlinhos. Que a gente fizesse as pazes depois de todo aquele sangue derramado. Acho que ela nunca me conheceu de fato. Na manhã da nossa primeira briga ela disse que eu devia medir as palavras:
– Meça as palavras quando falar de mim, seu puto miserável.
Medir as palavras? Afinal de contas, o que ela queria dizer com isso? Quantas mentiras você acaba inventando quando “mede as palavras”? E quantas verdades você deixa de dizer? Eu nunca iria medir porra nenhuma. E era por isso que ela continuava batendo a porta da sala e fazendo voar todos os meus papéis de rascunho. Ela carregava uma fita métrica para cada idiotice que fosse dizer. E eu nunca tive muita noção de espaço.
Ela foi embora. Foi bom. Eu tinha uma desculpa para ser um puto miserável. A tristeza é sempre um álibi perfeito.
Encontrei o Carlinhos quando o corte ainda latejava. Quando alguns outros cortes haviam infeccionado. Eu bebia por todas as mulheres de minha vida. Por Layla, Marina e Camila. Por Ana, Luíza e Julia. Principalmente por Rebeca. Bebia por todas elas e fingia que era apenas por mim. Da porta do bar surgiu o Carlinhos. Cumprimentou a todos como se não tivesse feito nada. Cumprimentou a mim como se não tivesse comido a minha mulher. Mas ele sabia que eu sabia. E mesmo assim fingiu que estava tudo bem:
– E aí, camarada?
Aqueles 32 dentes brancos como papel sulfite. Aquela camisa bem passada que ele colocava pra dentro da calça. Aquela limpeza toda que me dava náuseas. Náuseas de pensar nele com a Rebeca. E eu esqueci de medir as palavras. Eu nunca conseguiria medir porra nenhuma com aquele nível etílico:
– Lembra da vadia que você comeu? Rebeca, ela chamava?
– Rebeca, ela se chama. E não é vadia.
– “Chamava”. Morreu, coitada.
Cara de espanto que não consigo descrever agora. Ele realmente se espantou:
– Do que você está falando?
– Eu matei a Rebeca.
O espanto aumentou. Eu nem me movi. Ele não acreditou mesmo. Deu meia volta e saiu pela porta, como se eu tivesse ficado louco. Ignorava minha loucura. Fingia que era brincadeira. Iria chegar em casa e abraçar Rebeca, e beijar Rebeca, e dar risada de mim. No dia seguinte ele leria nos jornais sobre a minha brincadeira. Eu matei a desgraçada. E nem precisei derramar sangue.
Enfim. A Rebeca deu pro Carlinhos. E não existe forma mais delicada para terminar esse relato.
– Eu te odeio, seu puto miserável.
Ela me odiava. Mais pelo fato de eu saber que ela me traia e não fazer nada. Ela esperava que eu batesse nela. Que eu matasse o Carlinhos. Que a gente fizesse as pazes depois de todo aquele sangue derramado. Acho que ela nunca me conheceu de fato. Na manhã da nossa primeira briga ela disse que eu devia medir as palavras:
– Meça as palavras quando falar de mim, seu puto miserável.
Medir as palavras? Afinal de contas, o que ela queria dizer com isso? Quantas mentiras você acaba inventando quando “mede as palavras”? E quantas verdades você deixa de dizer? Eu nunca iria medir porra nenhuma. E era por isso que ela continuava batendo a porta da sala e fazendo voar todos os meus papéis de rascunho. Ela carregava uma fita métrica para cada idiotice que fosse dizer. E eu nunca tive muita noção de espaço.
Ela foi embora. Foi bom. Eu tinha uma desculpa para ser um puto miserável. A tristeza é sempre um álibi perfeito.
Encontrei o Carlinhos quando o corte ainda latejava. Quando alguns outros cortes haviam infeccionado. Eu bebia por todas as mulheres de minha vida. Por Layla, Marina e Camila. Por Ana, Luíza e Julia. Principalmente por Rebeca. Bebia por todas elas e fingia que era apenas por mim. Da porta do bar surgiu o Carlinhos. Cumprimentou a todos como se não tivesse feito nada. Cumprimentou a mim como se não tivesse comido a minha mulher. Mas ele sabia que eu sabia. E mesmo assim fingiu que estava tudo bem:
– E aí, camarada?
Aqueles 32 dentes brancos como papel sulfite. Aquela camisa bem passada que ele colocava pra dentro da calça. Aquela limpeza toda que me dava náuseas. Náuseas de pensar nele com a Rebeca. E eu esqueci de medir as palavras. Eu nunca conseguiria medir porra nenhuma com aquele nível etílico:
– Lembra da vadia que você comeu? Rebeca, ela chamava?
– Rebeca, ela se chama. E não é vadia.
– “Chamava”. Morreu, coitada.
Cara de espanto que não consigo descrever agora. Ele realmente se espantou:
– Do que você está falando?
– Eu matei a Rebeca.
O espanto aumentou. Eu nem me movi. Ele não acreditou mesmo. Deu meia volta e saiu pela porta, como se eu tivesse ficado louco. Ignorava minha loucura. Fingia que era brincadeira. Iria chegar em casa e abraçar Rebeca, e beijar Rebeca, e dar risada de mim. No dia seguinte ele leria nos jornais sobre a minha brincadeira. Eu matei a desgraçada. E nem precisei derramar sangue.
Enfim. A Rebeca deu pro Carlinhos. E não existe forma mais delicada para terminar esse relato.
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