24.12.10

Tentarei ser breve

          Eu quero aprender. Aprender a respirar. Do cerne de uma estranha mágoa sem origem conhecida, surgiu em mim a vontade de nadar contra a corrente desse oceano que me sufoca. Quero aprender a dizer as coisas certas, no exato momento em que precisam ser ditas. Aprender a estar em dois lugares ao mesmo tempo, seja de corpo ou de alma. Quero cruzar a linha que risco em volta de mim, aquela que mantém todos afastados, que diz subliminarmente: “Eu tenho o controle”. Quero perder o controle. Aprender a me deixar ser controlada, mas somente nos momentos em que sei que não tenho mais domínio de mim mesma. Chorar em público. Aprender a conquistar a confiança de quem amo. O respeito. A reciprocidade. Quero aprender a nadar.

          Aprendizado leva tempo, leva aos erros, aos acertos. Aprendizado requer esforço. Quero aprender a ter forças. Saber de onde as posso tirar, quando as mesmas me faltarem. Ter de sobra, pra poder dividir. Para que as perguntas que me parecem tão simples, obtenham suas respostas. As quais eu tenho certeza de que estão a zombar de mim, bem diante do meu nariz. Quero aprender a enxerga-las. Antes que esse oceano me leve de vez.
          Atordoada. Perdida. Solitária. Gastando tanta energia em futilidades e poupando-a para o que realmente importa. Para aquilo que eu quero aprender. Depende de mim. Somente eu posso ser meu bote salva-vidas. Eu sou a única que posso remar. E que seja somente eu em meio a esse oceano de águas turbulentas. Não há mais espaço no bote. E enquanto não há terra à vista, contento-me em buscar o escasso ar da superfície. Em perder-me de vez em quando nessa imensidão da qual enxergo nada além de um palmo à minha frente. Enquanto a calmaria não vem.
          Eu queria aprender a respirar debaixo da água do oceano.

17.12.10

Homicídio Doloso

          A Rebeca deu pro Carlinhos. Não consigo pensar em forma mais delicada para começar esse relato. Ela deu. E enquanto dava pra mim. E fingindo que me amava. Vadia. A primeira mulher que disse que me amava. A última mulher a me magoar daquela forma:
          – Eu te odeio, seu puto miserável.
          Ela me odiava. Mais pelo fato de eu saber que ela me traia e não fazer nada. Ela esperava que eu batesse nela. Que eu matasse o Carlinhos. Que a gente fizesse as pazes depois de todo aquele sangue derramado. Acho que ela nunca me conheceu de fato. Na manhã da nossa primeira briga ela disse que eu devia medir as palavras:
          – Meça as palavras quando falar de mim, seu puto miserável.
          Medir as palavras? Afinal de contas, o que ela queria dizer com isso? Quantas mentiras você acaba inventando quando “mede as palavras”? E quantas verdades você deixa de dizer? Eu nunca iria medir porra nenhuma. E era por isso que ela continuava batendo a porta da sala e fazendo voar todos os meus papéis de rascunho. Ela carregava uma fita métrica para cada idiotice que fosse dizer. E eu nunca tive muita noção de espaço.
          Ela foi embora. Foi bom. Eu tinha uma desculpa para ser um puto miserável. A tristeza é sempre um álibi perfeito.
          Encontrei o Carlinhos quando o corte ainda latejava. Quando alguns outros cortes haviam infeccionado. Eu bebia por todas as mulheres de minha vida. Por Layla, Marina e Camila. Por Ana, Luíza e Julia. Principalmente por Rebeca. Bebia por todas elas e fingia que era apenas por mim. Da porta do bar surgiu o Carlinhos. Cumprimentou a todos como se não tivesse feito nada. Cumprimentou a mim como se não tivesse comido a minha mulher. Mas ele sabia que eu sabia. E mesmo assim fingiu que estava tudo bem:
          – E aí, camarada?
          Aqueles 32 dentes brancos como papel sulfite. Aquela camisa bem passada que ele colocava pra dentro da calça. Aquela limpeza toda que me dava náuseas. Náuseas de pensar nele com a Rebeca. E eu esqueci de medir as palavras. Eu nunca conseguiria medir porra nenhuma com aquele nível etílico:
          – Lembra da vadia que você comeu? Rebeca, ela chamava?
          – Rebeca, ela se chama. E não é vadia.
          – “Chamava”. Morreu, coitada.
          Cara de espanto que não consigo descrever agora. Ele realmente se espantou:
          – Do que você está falando?
          – Eu matei a Rebeca.
          O espanto aumentou. Eu nem me movi. Ele não acreditou mesmo. Deu meia volta e saiu pela porta, como se eu tivesse ficado louco. Ignorava minha loucura. Fingia que era brincadeira. Iria chegar em casa e abraçar Rebeca, e beijar Rebeca, e dar risada de mim. No dia seguinte ele leria nos jornais sobre a minha brincadeira. Eu matei a desgraçada. E nem precisei derramar sangue.
          Enfim. A Rebeca deu pro Carlinhos. E não existe forma mais delicada para terminar esse relato.