22.8.10

Infinito Árido [ou o fim do mundo segundo Bia B.]

         Era estranha aquela visão do mundo novo. Já não havia Rio, já não havia Espírito Santo. Não havia Santos de nenhuma espécie. Litoral nenhum restara. Não havia Japão, mas isso já era outra história, pois terra tão longe nem valia a pena se pensar a respeito. Água que subira sem propósito, pois a sequidão do solo era tão certa quanto o absurdo de ver tanta água subir sem utilidade nenhuma. Tirar o sal levava tempo. Pouca gente conseguia. Muita gente queria. E como ser humano não tem essa alcunha à toa, fez-se a guerra. Pois só sendo humano para entender guerra. Talvez nem assim.
         Não se sabia de terra vizinha. Argentina nem fazia parte do vocabulário. Também não havia mais futebol para se preocupar. Talvez até houvesse, mas sem rivalidade besta de países que agora mal se conheciam. Não havia Paraguai para mandar boneca falsificada, Colômbia para mandar droga necessitada. Não havia nada além do que restou de um Brasil capengo, mais torto do que nunca. Também, para qualquer outro lugar não havia Brasil nem lugar nenhum. A globalização havia acabado desde as últimas bombas atômicas e as chuvas ácidas carregadas de ódio. “Cada um por si” parecia ser uma boa frase a ser usada. “Salve-se quem puder” parecia implícito. A visão do novo mundo não tinha computadores falantes, máquinas replicantes, satélites poderosos ou carros voadores movidos a hidrogênio. Parecia mais com o velho mundo. Parecia o começo dos tempos. Talvez fosse assim mesmo que o mundo deveria acabar; regredindo até chegar no começo. Quem sabe não aconteceria o Big-Ben ao contrário? Duas pontas unidas até que o mundo começaria de novo, assim como o universo, em um ciclo interminável que poderia ser muito mais antigo do que os homens sequer imaginavam. Ou era apenas o começo de um imenso e desolador ponto final.
         Como fazia calor. De dia, de noite, no inverno, no verão. Tanto fazia. A temperatura se mantinha. Roupa era costume antigo e necessidade quando alguém tinha que andar sob o sol escaldante e cruel com a pele. Certos pudores se mantinham. Mas o ser humano continuava a se reproduzir, na esperança de continuar a humanidade. Tanto fazia. Com ou sem humanidade, o mundo continuaria seu ciclo. Mas tinha vezes que os gêneros mal se misturavam. Então homossexualidade era tão aceitável como nunca havia sido até então. Tinha gente que nascia gay. Outros se faziam conforme o tempo. Mas a maioria se satisfazia conforme a ocasião. Certos pudores se perdiam.
         Comida faltava de vez em quando. O que não faltava era a festa. Quando se tem quase nada, o pouco já é motivo de celebração. Algumas semanas de chuva por ano era o máximo que conseguiam. E já era muito. Depois era seca até dizer chega. E aquela vontade de sei lá o que, brotando por entre as frestas da terra rachada, era o mais nutritivo alimento dos sobreviventes.
         Engraçado era encontrar alma quase viva no meio da solidão. Bem de longe dava pra ver um pontinho preto, meio zonzo, caindo de fraqueza. Há três dias ela andava. Há três dias ela morria. Aos poucos o vento se extinguia e o sol lhe torrava o couro cabeludo. As pegadas no solo pareciam impressões que ficariam para sempre. A pele amarela quase colada aos ossos, as mãos trêmulas, os pés que de tão fracos desistiam e faziam-na rastejar. Tudo assim descrito como um fim de vida, um último sopro rumo ao maior desconhecido e à maior certeza. Antes que os olhos se fechassem por completo, ainda pôde ver alguns vultos, alguns movimentos, um levantar da poeira. “Anjos”, ela pensou. “Vão me levar para bem longe”, ela implorou. Mas viva ela continuou Por tempo o suficiente. Salvaram-lhe a vida, lhe deram um teto capenga e meio copo de água pra enganar a sede. Se bem que ela preferia ser levada por anjos.
         Seria cômico se não fosse árido.

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