Esfrego o lápis no papel. O pigmento preto sobre a celulose entrecortada por pautas e margens. Esboço uma imagem despretensiosa. Uma imagem cuja única função é fazer meu tempo passar. O primeiro trem passa. Faz vento. Debaixo da terra tudo é mais tranquilo, apesar de ser mais frio.
Pego o terceiro trem que passa. Não tenho pressa. Levanto-me antes dele parar. Dou passos preguiçosos até que a porta se abre eu finalmente entro no último vagão que pára na plataforma. Sentido Jabaquara. Não tenho destino. Ainda é cedo e preciso de preparação psicológica para o que pretendo fazer.
Viro a página do meu caderno. Risco algumas linhas. Uma rosa. Vermelha. Cheia de espinhos. Uma menina olha fixamente para a ponta do meu lápis. Não deve ter mais que seis anos e usa uma máscara cirúrgica. O cabelo raspado. Imagino que seja grave. Viro a página e ela acompanha o desenho, virando a cabeça, tentando ver a minha rosa. Volto àquela página. Apago o caule. Uma criança não está pronta para tantos espinhos. Redesenho, mas dessa vez com uma folha verde e lustrosa. Arranco a página e pergunto: “Gosta?”. Ela sacode a cabeça ansiosamente. Dou-lhe a página. A mãe agradece e elas descem na próxima estação. E eu continuo sem destino.
São dez horas e eu desço na estação São Judas. Fiquei no vagão por duas horas. Tracei uma linha por cima da outra no papel. O caminho que percorri a manhã inteira. Decorei cada estação da linha azul. Três vezes. Ou mais. E ainda não sei o que dizer quando chegar à superfície. Procuro a rua. Casas grandes. Ele deve ter dinheiro. Tento afastar qualquer idéia de que somos assim tão diferentes e continuo andando. Número 228. Apartamento 18B. Pergunto pelo senhor Eduardo Alves de Lima. A voz no interfone pergunta quem sou eu. Digo hesitante: “O filho dele”.
Aqui dentro está mais frio do que lá fora. Eu olho pela janela enquanto ele passa o café. Da cozinha ele diz:
– Altura me dá um desconforto.
Por isso mora no primeiro andar:
–Tem medo?
– Eu disse desconforto.
Medroso. Mas dessa vez eu não disse em voz alta. Só fiquei pensando que aquelas três frases trocadas foram suficientes para eu constatar que não o conhecia. Não conhecia nem seus medos. Não sabia nem o gosto do seu café.
– Onde estão os papéis?
Parece que ele quer me dispensar logo. Não o culpo. Só faço o trabalho sujo pelos outros mesmo:
– Por que sua mãe não veio pessoalmente?
Medrosa. Mas eu também não disse em voz alta. Não precisa. Ele conhece os medos de minha mãe. Ele conhece aqueles papéis de divórcio. E eu tenho que cuidar disso:
– Ela não devia te envolver nisso.
Ele não entende. O que são mais alguns papéis? O que são mais algumas estações de metrô? Ele se enfiou nesse casulo de 70m² e nem me deu uma chave. Ele fez as malas e nem disse “Adeus”. Ele foi embora e nem me deu tempo de conhecê-lo. Eu estou envolvido nisso até o último fio de cabelo preto que herdei dele:
– Desculpa a bagunça, mas achei que só viria mais tarde. Antigamente você ficava acordado de madrugada. Agora costuma levantar cedo?
– Não.
A pergunta mais longa que ele faz e a resposta mais curta na qual eu penso. Eu quero terminar isso o mais rápido possível. Eu quero voltar logo para o meu vagão de metrô lotado. Eu quero sair da sua vida o quanto antes. Eu não quero mais nada que nos ligue. Nem mesmo um nome. Aquele nome que ele acaba de assinar na última linha, sem nem mesmo ler o que vem escrito antes. Por alguma razão ele confia em mim. De uma forma que eu nunca poderia confiar em ninguém:
– Pronto.
Ele nem olha na minha direção. Fecha a pasta e me devolve. Vai buscar café. E eu nem espero ele voltar. Abro a porta e desço a escada. Não me despeço. Ele sabe onde me encontrar. E tudo bem se eu nunca mais o ver. Ele já tinha ido embora muito antes do divórcio. Ele já tinha deixado de ser meu pai muito antes de deixar de ser marido de minha mãe. Nunca tive seu nome. Nunca tive sua atenção. Não ligo se nunca mais nos vermos. E ele nem sabe onde me encontrar.
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