29.8.10

50

         Nota: Há algumas semanas, um amigo meu se mudou para Porto Alegre. Quando o questionei se demoraria muito para ele voltar para São Paulo (de passagem, que fosse!), ele respondeu: "Conta até cinquenta. Prometo que volto antes". Não que o texto a seguir tenha algo relacionado com a gente (não tem, de fato), Mas me parece válido esse breve comentário sobre o que me inspirou a escrevê-lo. Qualquer semelhança com a realidade não é coincidência, de forma alguma.


Umidade Relativa do Ar. 

          Vinte e sete, vinte e oito, vinte e nove, trinta. A Novalgina no meu copo de água da torneira. Foi naquela outra noite, em que São Paulo tinha 13% de umidade relativa do ar. Estava toda no meu copo, a água de São Paulo. Não sei quantos dias sem chover. Eu estirada na cama, pensando que o Saara era assim mesmo. E antes que eu começasse a ver miragens, fui para o bar, onde a cerveja mataria minha sede e a respiração daquela gente deixaria o ar mais ameno. Calcei o sapato vermelho de salto alto e me arrependi ainda no elevador. Contei os segundos de tortura voluntária aos meus pés. Trinta, trinta e um, trinta e dois. Muito mais do que a umidade relativa do ar.
          Trinta e três. Os passos contados do carro até o bar. A quantidade de pessoas que se degolariam por uma bebida gelada. Os goles da vodka de Luíza, até aquele minuto em que ela dava o trigésimo quarto e pedia outra dose. Sabe-se lá qual dose era aquela. Trigésima quinta? Sentei-me ao seu lado sem pedir licença:
          – Alguma ocasião especial?
          Ela nem olhou para o lado.
          – Gosto de pensar assim. Por que você veio até aqui?
          O ponto é apenas uma representação gráfica. Sua frase foi rápida e cortante. Talvez fosse melhor escrever sem pausa alguma:
          – Gosto de pensar assim porque você veio até aqui?
          Talvez sem a interrogação:
          – Gosto de pensar assim porque você veio até aqui.
          Dessa forma dou o sentido que quero. Com essa pequena licença poética, eu me sinto um pouco mais querida por ela:
          – Não é a única que tem o direito de beber sozinha.
          – Agora que você chegou, acabou de tirar o direito de ambas.
          – Temos o direito de tomar cicuta. Mas você não faria isso, faria?
          – É preciso coragem.
          – Pra tomar cicuta?
          – Não. Pra beber com você. Pra tomar cicuta é preciso muita covardia.
          – Você não mudou nada.
          – Você continua a mesma.
          Essa parte já é mais difícil de editar. Não sei como isso poderia ser voltado ao meu favor. Com uma frase freudiana ou outra, quem sabe? Prefiro pensar que a repulsa era gerada pela falta de domínio sobre o objeto desejado. Eu sendo o objeto. O desejo, implícito, formando uma barreira entre nós. Mas era impossível citar Freud, quando eu ainda tinha aquele “tal” no meu caminho:
          – Cadê ele?
          – Ele quem?
          – O barman.
          Sarcasmo nunca fora nosso forte. Eu mal o punha em prática e ela quase nunca entendia. Ingênua. Olhou para o barman e fez sinal para que ele me atendesse. Pedi uma cerveja porque sabia que ela odiava. E tentei deixar de ser sarcástica:
          – O Pedro, é claro.
          – Não estou mais com ele.
          – Não?
          Eu sorri, tentando não sorrir. Ela olhou em meus olhos pela primeira vez naquela noite. Só para constatar que eu ainda gostava dela. Vadia:
          – Esconda esse sorriso.
          – Não estou sorrindo, foi só um reflexo.
          Momentos de silêncio não são apenas constrangedores. Raramente um silêncio me deixa constrangida. Eu reflito. Calada eu consigo ouvir melhor meus pensamentos e deixar que cada lembrança grite como se estivesse sendo torturada:
          – Vocês já estiveram “não juntos” por algumas vezes, mas ainda assim saíam pra beber e voltavam no dia seguinte. O quão “não juntos” vocês estão agora?
          – O suficiente para eu beber sozinha.
          Eu não sorri. Aborreceu-me muito aquela imagem. Doeu tanto pensar que alguma lágrima queria sair de seus olhos. Mas ela não deixava. Não na minha frente:
          – Por que acabou dessa vez?
          – Ele é uma criança.
          – Então quando ele crescer...
          – Quando ele crescer vai ser tarde demais. Não vou esperar tanto tempo.
          Dezenove anos ele tinha. Achando-se melhor que eu porque tinha a Luíza. Querendo fazer amizade e marcar território. E eu rindo e pensando “Eu como a sua mulher, filho da puta. Mais do que você”. Ele desconfiava. Não tinha certeza só porque eu sou mulher. Mas pelo jeito que olhava para mim, eu sabia que desconfiava:
          – E quanto a nós?
          – Ainda existe esse pronome no seu vocabulário?
          – Ainda existe no seu.
          – Não agora. Nesse momento, somos eu e meu copo.
          – Continua sendo um “nós”.
          – Para você, seria um “vós”.
          Trinta e seis, trinta e sete. Trinta e oito vezes em que ela me reduziu às cinzas, só com palavras. Não. Eu já perdi a conta, de fato:
          – Você ainda não me disse para sair, então eu continuo aqui.
          – Sou corajosa.
          – Suas mãos trêmulas me dizem o contrário.
          – Está frio.
          – Não. Não está. Vinte e oito graus, treze por cento de umidade e um bar lotado em São Paulo. A última coisa que você está sentindo agora é frio.
          – É você que está me fazendo mal.
          – Então porque você ainda não me disse para sair?
          – É porque você me faz muito bem.
          E ela me deixou na companhia do meu copo de cerveja. Abandonou até a sua vodka. A parte cômoda de amar uma mulher era que eu podia segui-la quando ela tentava se esconder no banheiro. Mas ela precisava daquele momento pra chorar suas lágrimas e voltar como se nada tivesse acontecido. Eu queria que ela se sentisse superior. Uma massagem no ego nunca é demais quando se está na merda.
          Trinta e nove, quarenta. Quarenta copos sujos entregues ao barman, antes que Luíza voltasse ao seu lugar no balcão. Não notei nos olhos, nariz ou lábios, algum indício de pranto. Era mais forte do que eu imaginava. Era mais forte que eu:
          – Vou pra casa.
          – Quer uma carona?
          – Você bebeu, não pode dirigir.
          – Eu vou dirigir com ou sem você no meu carro.
          Com ela no meu carro, eu correria menos risco, pensei. Talvez ela começasse a se sentir superior demais e eu me arrependeria de massagear tanto o seu ego:
          – Você pode bater o carro, com ou sem mim.
          Aposto que ela pensou “Melhor que seja sem mim”. Enquanto pagava a conta, lembrei de tudo que havíamos vivido juntas. Quarenta e um, quarenta e dois, quarenta e três bons momentos. Os maus eu já não conseguia contar. Eram tantos:
          – Adeus.
          E ela passou esbarrando o braço em mim. O mesmo braço que eu puxei para poder beijá-la. Eu não estava totalmente sóbria. E ela não estava totalmente disposta a deixar ser vista beijando outra mulher. Ninguém percebeu, ninguém deu a mínima, ninguém, nem de longe, se importava. Mas ela sim. E foi ela quem saiu sem dizer nenhuma palavra. Foi assim que fodi com tudo e tive a certeza de que ela nunca mais falaria comigo.
          Quarenta e quatro, quarenta e cinco. Quarenta e seis passos que ela deu até eu correr atrás dela. Mesmo com o salto alto. Dessa vez eu não lhe daria momento algum para chorar lágrima alguma. Dessa vez eu tinha o direito de saber o que se passava em sua mente. Gritei seu nome pela rua movimentada. Algumas Luízas desavisadas olharam para mim. Mas não a minha. A minha Luíza continuou andando, a passos cada vez mais rápidos. Cada vez mais longe. Quarenta e sete segundos até que eu conseguisse alcançá-la:
          – Vai voltar pro Pedro agora?
          Ela não olhou para mim. Eu achando que ela nunca mais olharia. Mas quando seu rosto se voltou contra a luz e contra qualquer orgulho, as lágrimas daqueles olhos finalmente se viram livres. Aumentando a umidade relativa do ar:
          – Pedro é o caralho! Chega com isso! O problema não é o Pedro e nunca foi. Não tenta se isentar da culpa. Ela nos pertence.
          E ela seguiu em frente sem nem secar as lágrimas. E eu voltei para o meu quarto, para minha cama. Para meu Saara particular. E continuei contando. Quarenta e oito, quarenta e nove. Cinqüenta. Conto até cinqüenta e ela volta pra mim antes disso.

22.8.10

Infinito Árido [ou o fim do mundo segundo Bia B.]

         Era estranha aquela visão do mundo novo. Já não havia Rio, já não havia Espírito Santo. Não havia Santos de nenhuma espécie. Litoral nenhum restara. Não havia Japão, mas isso já era outra história, pois terra tão longe nem valia a pena se pensar a respeito. Água que subira sem propósito, pois a sequidão do solo era tão certa quanto o absurdo de ver tanta água subir sem utilidade nenhuma. Tirar o sal levava tempo. Pouca gente conseguia. Muita gente queria. E como ser humano não tem essa alcunha à toa, fez-se a guerra. Pois só sendo humano para entender guerra. Talvez nem assim.
         Não se sabia de terra vizinha. Argentina nem fazia parte do vocabulário. Também não havia mais futebol para se preocupar. Talvez até houvesse, mas sem rivalidade besta de países que agora mal se conheciam. Não havia Paraguai para mandar boneca falsificada, Colômbia para mandar droga necessitada. Não havia nada além do que restou de um Brasil capengo, mais torto do que nunca. Também, para qualquer outro lugar não havia Brasil nem lugar nenhum. A globalização havia acabado desde as últimas bombas atômicas e as chuvas ácidas carregadas de ódio. “Cada um por si” parecia ser uma boa frase a ser usada. “Salve-se quem puder” parecia implícito. A visão do novo mundo não tinha computadores falantes, máquinas replicantes, satélites poderosos ou carros voadores movidos a hidrogênio. Parecia mais com o velho mundo. Parecia o começo dos tempos. Talvez fosse assim mesmo que o mundo deveria acabar; regredindo até chegar no começo. Quem sabe não aconteceria o Big-Ben ao contrário? Duas pontas unidas até que o mundo começaria de novo, assim como o universo, em um ciclo interminável que poderia ser muito mais antigo do que os homens sequer imaginavam. Ou era apenas o começo de um imenso e desolador ponto final.
         Como fazia calor. De dia, de noite, no inverno, no verão. Tanto fazia. A temperatura se mantinha. Roupa era costume antigo e necessidade quando alguém tinha que andar sob o sol escaldante e cruel com a pele. Certos pudores se mantinham. Mas o ser humano continuava a se reproduzir, na esperança de continuar a humanidade. Tanto fazia. Com ou sem humanidade, o mundo continuaria seu ciclo. Mas tinha vezes que os gêneros mal se misturavam. Então homossexualidade era tão aceitável como nunca havia sido até então. Tinha gente que nascia gay. Outros se faziam conforme o tempo. Mas a maioria se satisfazia conforme a ocasião. Certos pudores se perdiam.
         Comida faltava de vez em quando. O que não faltava era a festa. Quando se tem quase nada, o pouco já é motivo de celebração. Algumas semanas de chuva por ano era o máximo que conseguiam. E já era muito. Depois era seca até dizer chega. E aquela vontade de sei lá o que, brotando por entre as frestas da terra rachada, era o mais nutritivo alimento dos sobreviventes.
         Engraçado era encontrar alma quase viva no meio da solidão. Bem de longe dava pra ver um pontinho preto, meio zonzo, caindo de fraqueza. Há três dias ela andava. Há três dias ela morria. Aos poucos o vento se extinguia e o sol lhe torrava o couro cabeludo. As pegadas no solo pareciam impressões que ficariam para sempre. A pele amarela quase colada aos ossos, as mãos trêmulas, os pés que de tão fracos desistiam e faziam-na rastejar. Tudo assim descrito como um fim de vida, um último sopro rumo ao maior desconhecido e à maior certeza. Antes que os olhos se fechassem por completo, ainda pôde ver alguns vultos, alguns movimentos, um levantar da poeira. “Anjos”, ela pensou. “Vão me levar para bem longe”, ela implorou. Mas viva ela continuou Por tempo o suficiente. Salvaram-lhe a vida, lhe deram um teto capenga e meio copo de água pra enganar a sede. Se bem que ela preferia ser levada por anjos.
         Seria cômico se não fosse árido.

8.8.10

70m²

          Esfrego o lápis no papel. O pigmento preto sobre a celulose entrecortada por pautas e margens. Esboço uma imagem despretensiosa. Uma imagem cuja única função é fazer meu tempo passar. O primeiro trem passa. Faz vento. Debaixo da terra tudo é mais tranquilo, apesar de ser mais frio.
          Pego o terceiro trem que passa. Não tenho pressa. Levanto-me antes dele parar. Dou passos preguiçosos até que a porta se abre eu finalmente entro no último vagão que pára na plataforma. Sentido Jabaquara. Não tenho destino. Ainda é cedo e preciso de preparação psicológica para o que pretendo fazer.
          Viro a página do meu caderno. Risco algumas linhas. Uma rosa. Vermelha. Cheia de espinhos. Uma menina olha fixamente para a ponta do meu lápis. Não deve ter mais que seis anos e usa uma máscara cirúrgica. O cabelo raspado. Imagino que seja grave. Viro a página e ela acompanha o desenho, virando a cabeça, tentando ver a minha rosa. Volto àquela página. Apago o caule. Uma criança não está pronta para tantos espinhos. Redesenho, mas dessa vez com uma folha verde e lustrosa. Arranco a página e pergunto: “Gosta?”. Ela sacode a cabeça ansiosamente. Dou-lhe a página. A mãe agradece e elas descem na próxima estação. E eu continuo sem destino.
          São dez horas e eu desço na estação São Judas. Fiquei no vagão por duas horas. Tracei uma linha por cima da outra no papel. O caminho que percorri a manhã inteira. Decorei cada estação da linha azul. Três vezes. Ou mais. E ainda não sei o que dizer quando chegar à superfície. Procuro a rua. Casas grandes. Ele deve ter dinheiro. Tento afastar qualquer idéia de que somos assim tão diferentes e continuo andando. Número 228. Apartamento 18B. Pergunto pelo senhor Eduardo Alves de Lima. A voz no interfone pergunta quem sou eu. Digo hesitante: “O filho dele”.
          Aqui dentro está mais frio do que lá fora. Eu olho pela janela enquanto ele passa o café. Da cozinha ele diz:
          – Altura me dá um desconforto.
          Por isso mora no primeiro andar:
          –Tem medo?
          – Eu disse desconforto.
          Medroso. Mas dessa vez eu não disse em voz alta. Só fiquei pensando que aquelas três frases trocadas foram suficientes para eu constatar que não o conhecia. Não conhecia nem seus medos. Não sabia nem o gosto do seu café.
          – Onde estão os papéis?
          Parece que ele quer me dispensar logo. Não o culpo. Só faço o trabalho sujo pelos outros mesmo:
          – Por que sua mãe não veio pessoalmente?
          Medrosa. Mas eu também não disse em voz alta. Não precisa. Ele conhece os medos de minha mãe. Ele conhece aqueles papéis de divórcio. E eu tenho que cuidar disso:
          – Ela não devia te envolver nisso.
          Ele não entende. O que são mais alguns papéis? O que são mais algumas estações de metrô? Ele se enfiou nesse casulo de 70m² e nem me deu uma chave. Ele fez as malas e nem disse “Adeus”. Ele foi embora e nem me deu tempo de conhecê-lo. Eu estou envolvido nisso até o último fio de cabelo preto que herdei dele:
          – Desculpa a bagunça, mas achei que só viria mais tarde. Antigamente você ficava acordado de madrugada. Agora costuma levantar cedo?
          – Não.
          A pergunta mais longa que ele faz e a resposta mais curta na qual eu penso. Eu quero terminar isso o mais rápido possível. Eu quero voltar logo para o meu vagão de metrô lotado. Eu quero sair da sua vida o quanto antes. Eu não quero mais nada que nos ligue. Nem mesmo um nome. Aquele nome que ele acaba de assinar na última linha, sem nem mesmo ler o que vem escrito antes. Por alguma razão ele confia em mim. De uma forma que eu nunca poderia confiar em ninguém:
          – Pronto.
         Ele nem olha na minha direção. Fecha a pasta e me devolve. Vai buscar café. E eu nem espero ele voltar. Abro a porta e desço a escada. Não me despeço. Ele sabe onde me encontrar. E tudo bem se eu nunca mais o ver. Ele já tinha ido embora muito antes do divórcio. Ele já tinha deixado de ser meu pai muito antes de deixar de ser marido de minha mãe. Nunca tive seu nome. Nunca tive sua atenção. Não ligo se nunca mais nos vermos. E ele nem sabe onde me encontrar.

4.8.10

E de repente ela se viu mais jovem. Oito anos antes, enrolada nos cobertores sobre a cama, encolhida enquanto pensava no dever de casa que ainda não havia feito e teria de entregar na manhã seguinte. Nostalgias provocadas pelo simples apagar das luzes do quarto. A música que ecoava através dos fones de ouvido era, ao mesmo tempo, perturbadora e reconfortante. E de repente ela se viu aos 18 anos novamente, enrolada nos cobertores sobre a cama, pensando nos trabalhos atrasados da faculdade e na bolsa de estudos que ela perderia se não se esforçasse um pouco mais. Perguntava a si mesma se havia modos de mudar, ou se ela já estava tão impregnada nela mesma, que nenhuma ducha de água fria seria capaz de lavar tanta sujeira. Lembrou dos seus dez anos como se tivesse sido há tanto tempo. Mas ela ainda era uma criança.