Certa madrugada eu disse para um amigo que gostaria de escrever de forma mais profunda. Ele disse que estava bom assim, superficial mesmo, do contrário estaria dizendo ao leitor o que e como ele deveria sentir. Não é isso que eu quero. Nem de longe. Quero múltiplas interpretações, quero duplos sentidos, quero algum mal entendido e algum descontentamento gratuito. Quero dar a quem lê uma chance de ser co-autor de minhas bobagens literárias. Dar-lhe o poder de sentir algo totalmente diferente do que sinto e, ainda assim, se identificar comigo. Quero tantas coisas que nem sei por onde começar. E é exatamente por isso que escrevo agora.
De cada detalhe dos meus dias eu tiro histórias que poderiam ser contadas por mim, mas que prefiro que outra pessoa o faça. Crio alter egos que se apoderam dos meus sentidos e nascem, morrem e renascem conforme a necessidade. Esporadicamente, dependendo muito de cada ocasião, mostro a amigos e parentes, que nem sempre são os melhores críticos. Escrevo pouco nesse blog. Mas, no fim das contas, guardo muito do que escrevo para mim, simplesmente porque são meus mais sinceros desabafos. E não é todo mundo que tem vocação para psicólogo. Prefiro deixar subentendido em cada vírgula dos meus escritos que se tornam públicos, do que realmente relatar a minha profusão de dúvidas, anseios e inconstâncias, esperando que alguém entenda o que realmente sinto. O que você lê aqui acaba sendo confuso e fora de propósito, pois são apenas recortes aleatórios e outras coisas que acabo achando perdidas em alguma pasta. Sempre ouço queixas a respeito disso. Mas agora tento organizar um pouco essa bagunça e vejo que pouca coisa faz sentido até mesmo para mim.
Por que escrevo agora? Para lembrar que eu ainda existo. Para que eu saiba que eu ainda existo, independente do que faço, do que ouço, do que digo e do que finjo ser. Eu quero lembrar que eu sou apenas uma e, por essa razão, posso ser quem eu quiser. E não irei me sentir mal por isso. Se me chama de falsa, sinto toda a hipocrisia que cada letra dessa palavra pode carregar. Falsos todos somos. Quem nega é porque já está cego o suficiente para acreditar nas próprias mentiras. Se existe ser humano que diz tudo o que pensa, que age seguindo todos seus princípios, que reconhece todos os erros e que é sempre o mesmo em qualquer ambiente, por favor, não me apresente. Não existe nada mais irritante que a verdade absoluta. Sou muitas em uma só e me orgulho disso. E se perco tempo tentando me encontrar, é porque eu sei que vou acabar falhando, mas que me divertirei muito nesse ínterim. Eu sei que, para cada lágrima que eu derramar; existirá uma razão, e se não existir, que elas caiam sem medo de molhar o carpete. Eu sei que cada sorriso será sem motivos, mas se houver algum motivo para sorrir, que seja muito bem aproveitado. Eu sei que a minha vida passará longe da utopia adolescente que ainda teimo em conservar em algum canto dos meus devaneios. Eu sei que não farei metade das coisas que eu gostaria de fazer, que não conhecerei todas as pessoas interessantes que imagino que existam, que não provarei de todas as bebidas que existem no mundo e que não sentirei o gosto de todas as bocas que me abrem o apetite e fazem meus olhos salivarem. Eu sei de tudo isso e não sei sobre muita coisa. Mas quero deixar aqui um registro desses meus tempos de múltiplas transições. Quero poder ler estas linhas e contemplar minha ingenuidade. Quero poder olhar para trás e ver que, apesar de ser apenas uma, fui todas que queria ser. Quero dividir com você esse meu momento de extrema falsidade. E quero continuar escrevendo sobre isso, e me aprofundando nisso, e aperfeiçoando todas as técnicas que posso criar sobre como enganar as pessoas com minha palavras doces impressas em papel pólen. Não lhe agrado? Entre para a fila. Você me ama? Não espere muito de mim, ou pode se decepcionar. Se é indiferente, então encontrou a pessoa certa. Prazer, Ieda Yumi. Não sei o que quero, nem mesmo o que é melhor para mim. Mas sei exatamente o que não quero.
Ah, meu caro amigo, não se preocupe; Continuarei superficial. Ainda prefiro boiar no raso e desbravar esse incerto mar enquanto contemplo o luar, ao invés de afundar e nunca mais conseguir sair da escuridão...
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