Sinto um cheiro. Um cheiro que me acompanha incansavelmente. Não é de todo ruim, mas também não chega a ser bom. Incomoda pelo simples fato de existir. Um odor que se mostra forte ou fraco, de acordo com minhas escolhas. Snto cheiro de medo, dúvida, ansiedade, solidão. Começo a sentir náuseas.
Às 5 horas da manhã num ônibus lotado, não sinto odores corporais, mas o perfume do sono que queima minha mente e da certeza de que eu deveria estar em qualquer outro lugar, menos ali. Mais tarde, prendo na garganta a palavra que sai a todo momento, mas justamente quando deve ser dita se mistura ao nó cego dado por um nervosismo sem sentido. E sinto o doce e nauseante suspiro de um hálito fresco que nunca encontrará o meu.
Antes de dormir, sinto o cheiro da falta que um cheiro faz. Sinto o amargo bafo que vem com a sensação de que algo deveria ser feito, mas não foi. Até durante o sono, posso sentir no subconsciente o ar exalado por rodos os sonhos que não serão realizados.
Vivo a inalar o ar de um cotidiano milimetricamente programado desde antes do meu nascimento, a encarar todo o cheiro da podridão como algo normal e ignorável. Vivo ignorando os bons perfumes, pois meu olfato já se acostumou com o esgoto.
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