30.6.09

Sinto um cheiro. Um cheiro que me acompanha incansavelmente. Não é de todo ruim, mas também não chega a ser bom. Incomoda pelo simples fato de existir. Um odor que se mostra forte ou fraco, de acordo com minhas escolhas. Snto cheiro de medo, dúvida, ansiedade, solidão. Começo a sentir náuseas.

Às 5 horas da manhã num ônibus lotado, não sinto odores corporais, mas o perfume do sono que queima minha mente e da certeza de que eu deveria estar em qualquer outro lugar, menos ali. Mais tarde, prendo na garganta a palavra que sai a todo momento, mas justamente quando deve ser dita se mistura ao nó cego dado por um nervosismo sem sentido. E sinto o doce e nauseante suspiro de um hálito fresco que nunca encontrará o meu.

Antes de dormir, sinto o cheiro da falta que um cheiro faz. Sinto o amargo bafo que vem com a sensação de que algo deveria ser feito, mas não foi. Até durante o sono, posso sentir no subconsciente o ar exalado por rodos os sonhos que não serão realizados.

Vivo a inalar o ar de um cotidiano milimetricamente programado desde antes do meu nascimento, a encarar todo o cheiro da podridão como algo normal e ignorável. Vivo ignorando os bons perfumes, pois meu olfato já se acostumou com o esgoto.

6.6.09

Um ilusionista

Deitei-me na grama úmida e acolhedora de um parque frio em meio a uma cidade caótica. Para enxergar melhor uma nuvem solitária que deslizava sem rumo pelo azul-celeste de um começo de junho promissor, fiz de minhas mãos uma pequena cabana e pousei-a sobre as sobrancelhas para fazer sombra. O céu de São Paulo estava azul como só pode ser após um dia de chuva, e o sol acariaciava minha pele, ao invés de simplesmente queimar meus miolos. Vagarosamente um ponto disforme entrou no meu campo de visão, em um ziquezague que parecia seguir o ritmo da música lenta que ecoava em meus ouvidos através de um fone emaranhado aos meus cabelos. A nuvem se distanciou e minha visão parou de segui-la para acompanhar o ponto que aos poucos se tornou mais claro e se revelou ser uma pipa. Não era um pássaro exótico, um pedaço de um avião perdido, um meteoro, muito menos um ovni, mas sim algo muito mais simples e desmerecedor de maiores atenções. Mas meus olhos não se distanciaram dele. Lembrei-me aos poucos de minhas tentativas – em uma infância não muito distante – de colocar uma pipa no ar e correr com ela sob um céu ensolarado como o daquele dia. Tentaivas frustradas. Não houve uma única vez em que consegui fazê-lo sem a ajuda de alguem muito mais alto que eu. Lembrei-me então de meu pai.

A saudade pode se manifestar de diferentes formas, em diferentes lugares e horários, mas é sempre motivada pela lembrança. Lembrei-me de meu pai por causa de uma pipa e foi nesse momento que a saudade apertou meu peito como eu nunca havia sentido. Eu costumava ver, dia após dia, meu pai indo para o trabalho, almoçando, arrumando os cabelos e todos os outros costumes cotidianos e irritantemente redundantes. Mas empinando uma pipa só o vi uma vez. Talvez por isso eu tenha me lembrado e sentido tanto aquele momento; porque foi extraordinário, em todos os sentidos da palavra. Eu era uma criança e provavelmente encarei aquilo como mais uma brincadeira. Mas deitada naquele grande verde descampado, sabe-se lá quanto tempo e quanto aprendizado depois, percebi a beleza que havia dentro de um simples dia infantil.

Não sei quando foi, mas nem dez anos eu tinha. Diziam que para empinar pipa eu precisava de um campo aberto e muito vento. Mas dentro de um pequeno quintal nos fundos de uma casa velha faltava o espaço e em um dia escaldante de janeiro faltava o vento. Mas eu não ligava e corria de um lado para o outro, linha na mão, pernas aceleradas e um sorriso débil e constante no rosto. Eu era uma criança, de fato, e como toda criança hiperativa eu não iria desistir tão fácil. Mas meu pai era adulto e sabia que eu precisava de ajuda. Não sei dizer como, mas ele colocou a pipa no ar com uma facilidade que parecia mágica para meus olhos pueris. Devo tê-lo visto como um ilusionista de cartola e fraque, dizendo palavras desconexas e engraçadas para que o truque acontecesse e a pipa fosse levitada. Com entusiasmo presenciei a agilidade nas mãos que enrolavam a linha ao mesmo tempo que a controlava, a colaboração do vento que só se fazia presente a uma altura inimaginável para mim e os olhos de adulto que ganhavam o brilho da meninice e o contentamento de outras épocas. Posso imaginá-lo há 40 anos, quando não tinha mais que um metro e vinte de altura e meia dúzia de preocupações banais. Imagino-o correndo em um chão de terra batida, sob o sol escaldante de um nordeste desconhecido, nada mais que uma pipa para acompanhá-lo e um ou outro boi para servir de obstáculo. Imagino-o a imaginar seu futuro, o que viria de bom, sem pensar nas mazelas e contratempos do próprio tempo. Imagino-o a sonhar, por mais que a vida lhe disesse que era bobagem, a sorrir, ainda que alienado pela pouca idade, a correr, apesar do cansaço que lhe dava bolhas nos pés. Imagino-o antes do um metro e oitenta e das preocupações de um pai de família. Imagino-o de um jeito que nunca havia imaginado, pois antes de ser pai ele era um homem e teve um bom tempo antes de ouvir o primeiro choro de meu irmão. Imagino-o agora em sua última morada – e como a saudade aperta.

Não quero tristeza. A saudade existe, mas a dor depende das lembranças. E, se depender de lembranças como essa, posso até senti-la, mas ela será acalentada por um sentimento muito maior. Pois a mágica foi feita, as cortinas se fecharam, o mágico deixou o palco, mas os aplausos ainda ecoam.