Ele estava lá. Nós estávamos lá. Uma única lâmpada amarela iluminava certo ponto da sala, mas de onde eu estava mal se enxergava seu rosto. O inevitável era sentir seu perfume. Os fones deixavam escapar a música que ele escutava. Sua falta de atenção aguçava a minha. Sem ele notar, o despi com os olhos, o devorei vivo, cuspi seus restos e fiz dele homem. De repente a porta se abre e eu acordo de meu sonho insone. Ele continua sendo o mesmo garoto quieto e de caráter duvidoso, esporadicamente bissexual e dono de uma mente que consegue viajar mais longe que a minha. Um garoto sobre o qual eu não sei muito mais além disso. Ele não deve ser nada demais. Mas meus instintos continuam me mandando pular em seu pescoço e bagunçar seus cabelos, sua mente e seu corpo. Meus braços percorreriam sua alma e ele se renderia, desistiria de lutar e compartilharia dos mesmos desejos. Se alguém interrompesse, dividiríamos o mesmo susto, o mesmo constrangimento, a mesma frustração, a mesma raiva. Se ninguém visse, dividiríamos um segredo, palavras poucas, mas olhares infinitos. Enfim, dividiríamos algo, muito além de apenas uma sala escura, de apenas um desconhecimento mútuo. Mas eu não consigo. Meu corpo trava, minha mente fica em branco e meu coração dispara. E enquanto isso não passar, esperarei o próximo abrir de portas que me acordará desse sonho tão bom.
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirAcho que sonhar acordada é fascinante!
ResponderExcluirQuanto mais alto e intenso, mais longe da realidade você se encontra. Porém, ao menor deslize, você cai, e aí o tombo pode ser feio...