Dessa distância, tudo que eu posso ver é o brilho do olho esquerdo dele. Só nesse brilho já tem muita coisa implícita. Mas minha mão direita, pousada sobre seu peito nu, consegue ir além e sentir o coração. Um pouco mais rápido que o normal. O ar quente que sai de suas narinas, bate na minha orelha e faz arrepiar o cabelo da nuca. Uma coisa leva a outra. E daqui a algumas horas eu estarei debaixo daquele chuveiro, tentando não pensar que a água está quente demais para um dia de março. Colocarei uma roupa limpa, cujo cheiro seja só o meu. Depois vou continuar mantendo a pose e o sorriso. Continuarei fingindo que tudo está bem. Mesmo não estando. Falarei sobre uma festa que nunca houve, tentando explicar o cheiro do cigarro na minha roupa. Aí vou contar piadas sobre aquela música noir, aquele filme parnasiano, sobre o livro bossa-nova. Vou comer o feijão raspado do fundo da panela, meio sem gosto, mas a única coisa que restou da janta de ontem. Sem querer, vou acabar arrancando aquela pele ao redor da cutícula da unha, que está me irritando nesse mindinho. Vai sangrar e, depois, ainda vai me fazer o favor de inflamar. Latejar. Vou ficar chupando o dedo mindinho até começar a latejar ainda mais. Então abro a caixa de suco de laranja que está na porta da geladeira, que eu sei que minha mãe está guardando pra quando o meu tio vier visitar a gente. Ele nunca visita a gente mesmo. Quando eu sentar na frente do computador, vou fazer qualquer coisa, menos o trabalho da faculdade que eu tenho que fazer. Aí vou começar a escrever sobre isso que eu estou pensando agora. Inevitavelmente, vou lembrar dele. Pesarei prós e contras, analisarei probabilidades, atualizarei todos os bancos de dados que dizem que é dele mesmo que eu gosto. Mas aí vou pensar em terminar com ele na sexta. Só que vou mudar de idéia na quinta, assim que ele sorrir pra mim. Depois vou ficar confusa de novo. Mas tudo bem. Por enquanto, eu só enxergo o brilho do olho esquerdo dele.