Sua voz sempre me soou fora do compasso. Não parecia se encaixar naquela figura. Eu observava as nuanças de seu corpo, as curvas de toda a sua feminilidade e, ainda assim, eu não sabia de onde vinha toda aquela força vocal que destoava do resto. Nunca prestei atenção em nenhuma de suas aulas. Eu ficava olhando para aquele volume que, vez ou outra, surgia entre suas pernas. Era uma mulher saudável, eu diria. Mas aquilo nas suas calças não parecia certo. E eu – amarrado a uma ingenuidade típica daquela idade em que você se acha grande demais para brincar de amarelinha, mas é novo demais para saber dos mistérios que podem existir dentro de um jeans surrado – ergui a mão e perguntei-lhe certa vez:
– Você é menina ou menino?
Assim, repentinamente, no meio de sua aula de biologia. Vi seu rosto corar e o volume na sua calça diminuir, como se estivesse se acovardando e voltando para o lugar de onde nunca deveria ter saído. Ela ignorou a minha pergunta. Como se não tivesse a ver com a aula. Naquele dia eu cheguei em casa e contei para minha mãe que a D. Lourdes tinha um negócio igual o meu no meio das pernas. Minha mãe se assustou e quis saber se ela havia mostrado para mim. Eu disse que não, mas que eu podia pedir para ver:
– Não, meu filho, não peça. – ela respondeu – E acho melhor você esquecer essa história.
Eu esqueci. Mas hoje eu sei que a D.Lourdes era mesmo um traveco. Gostosa, sim. Mas não deixava de ser um traveco.